segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Luís Cília

Quando é que se deu o primeiro contacto com a música do Zeca Afonso?

"Já foi em Paris. O Adriano conheci-o pessoalmente aí, mas não tinha nenhum disco dele. E foi por essa altura que ouvi o primeiro disco do Zeca Afonso, acompanhado na viola por uma pessoa também muito importante, com um excelente trabalho, o Rui Pato​. Foi aí que conheci os primeiros discos do Zeca Afonso, que eram uma maravilha, de um talento enorme."

E quando é que conheceu pessoalmente o Zeca Afonso?

Foi em Paris, porque eu não podia vir a Portugal. Conheci-o quando o Zeca foi lá cantar pela primeira vez. Já não me recordo da data precisa, mas ainda foi nos anos 60, numa espécie de foyer de estudantes no Bairro Saint-Michel, que era dirigido pelo Ayala, um exilado que vivia lá há muitos anos. A partir daí ficámos amigos. Ele e a Zélia chegaram a ficar em nossa casa numa altura em que não estávamos em Paris. Comecei, portanto, a ter uma relação mais intensa com o Zeca, também com o Paco Ibáñez que conheceu o Zeca nessa época através de mim."

daqui:

http://www.esquerda.net/dossier/um-grande-amigo-e-um-homem-extraordinario/47140

foto: Luís Cília e Zeca, na Festa do Avante 1980

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Benedicto

"E aqui quero fazer uma referência especial porque quando falamos de cantores militantes não podemos esquecer o Benedicto, natural de Santiago de Compostela, galego, que fez comigo mais de cinquenta sessões, algumas delas com José Jorge Letria e outros.

Como é óbvio, a maior parte de tais sessões foi clandestina e na fase final do fascismo quando o movimento sindical começou a estruturar, gerando mais tarde a Intersindical, fomos convidados frequentemente para actuar nos caixeiros, depois nos bancários (também convidaram o Fanhais)."

fonte: José Afonso - Andarilho nas Astúrias de Mário Correia​

fotos: Zeca em Santiago de Compostela com Fanhais, JJLetria e Benedicto



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O cancro

"Íamos, os dois, em pé, no eléctrico para a Praça da República e ele, no seu jeito irreverente, disse, em voz alta, uma graçola qualquer sobre Salazar - talvez: "Diz-se que o António tem um cancro; coitadinho do cancro!". Houve uns quantos sorrisos discretos...

Quando descemos do eléctrico, o Zeca foi abordado por um sujeito desconhecido que lhe mostrou "qualquer coisa", que trazia escondida sob o virado do casaco. "Que raio de merda é essa?", foi a reacção descontraída do Zeca. O homem agarrou-o por um braço, e mostrou-lha melhor - era um crachá da PIDE!

O Zeca ficou entupido e o homem disse-lhe: "Tenha juizinho e não volte a dizer aquelas baboseiras!"


fonte: "Zeca Afonso antes do mito" de António dos Santos e Silva

foto: Zeca com o irmão João, António dos Santos e Silva deitado no capô e o primo Tó, filho da tia Avrilete, atrás à dtª.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Canção do Mar

"Canção do Mar" do EP "Cantares de José Afonso" - 1964
(disco proibido pela censura)

viola: Rui Pato​


Ó mar
Ó mar
Ó mar profundo
Ó mar
Negro altar
Do fim do mundo

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
O teu olhar

Ó mar
Ó mar
Ó mar profano
Ó mar
Verde mar
Em que me irmano

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar



foto: Zeca com a filha Joana

sábado, 5 de agosto de 2017

Zeca pelo olhar do pai.

numa carta enviada de Díli para o irmão Filomeno.

«Não é uma criança má nem lorpa. Em Lourenço Marques, o professor, apesar de não o compreender, afirmava que ele é inteligente. Quanto a bondade, dizia que ele era o melhor aluno que tinha na escola! Então que é ele? Não sei. Sei apenas que é uma criança... terrivelmente criança»

Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O que me ficou de Coimbra...

«O que me ficou de Coimbra... o lirismo também. Nós vivíamos em Coimbra acima das suas possibilidades reais. Imaginava Coimbra acima das suas reais dimensões. Era uma Coimbra poetizada porque quando eu queria concretizar na cidade essa imagem, era uma chateza do caraças.

Invariavelmente ia dar à Rua Visconde da Luz, à Ferreira Borges, e encontrava os mesmos tipos nos mesmos lugares, ali no Arcádia, e pensava muitas vezes: afinal esta cidade é muito mais fechada, é muito mais prosaica do que possa parecer.»

Zeca Afonso


"José Afonso, o Rosto da Utopia", de José A. Salvador

Foto: Zeca com António Portugal

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

88 anos do Zeca

José Afonso nasceu a 2 de agosto de 1929. Se fosse vivo hoje faria 88 anos.

Parabéns Zeca

"Zeca resulta da enxertia de uma cepa beirã (pai) em vide minhota (mãe), ambas transplantadas para a foz do Vouga. Da combinação onomástica dos progenitores saiu-lhe o nome: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. As contingências, sempre arbitrárias, reduziram-no mais tarde para José Afonso, Zeca para os mais íntimos (...)

Não existe a casa onde Zeca nasceu, na parte superior daquilo que foi a escola infantil, por essa altura a cargo da mãe. Uma instituição pré-primária que remontava ao liberalismo"


"Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Zeca pelo olhar do irmão João

"Dos três irmãos (João, Zeca e Mariazinha), foi ele quem mais se aproximou, na fisionomia e talvez na psicologia, dos Cerqueiras. (...) A tez clara, os olhos rasgados (para horizontes invisíveis) e também uma sensitiva vibração, a capacidade imagética, a descoberta do lado oculto das coisas vinham, a meu ver, da costela Cerqueira ou talvez da parte Dantas Cerqueira.

Mas a moldura era dos Afonsos, neste sentido de que puxava ao pai, por sua vez mais parecido com o pai dele (o avô Santos) do que com a mãe (a avó Lucrécia) onde o sobrenome Afonso vai buscar afinal a sua origem."


"Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Arnaldo Trindade

descreve-o como...

«um pouco snob intelectualmente. Não era uma pessoa simples, embora soubesse ser simples» Era um leitor compulsivo «Era um tipo muito, muito lido, que tinha os García Marquez antes de serem traduzidos (...) tinha consciência do que estava a acontecer no mundo, do Maio de 68 francês ao Vietname, passando pelas lutas sociais nos EUA e pelas revoluções comunistas por esse mundo fora. Estava a par de tudo»

Pelo que os discos foram-se tornando «mais politizados» mas também «mais literários». «Naquela altura, devido ao regime, ele tinha de encontrar metáforas para o que queria dizer. Muita da beleza daquelas canções reside nessa subjetividade»

daqui:

http://blitz.sapo.pt/principal/update/2017-02-23-Jose-Afonso-morreu-ha-30-anos.-E-ainda-ha-um-mito-para-derrubar

sábado, 29 de julho de 2017

Zeca Afonso e a Revolução


"Tudo isso era, em parte, o fascismo, o inimigo comum que nós tínhamos. Eu sou do tempo em que os polícias andavam pelos jardins a ver quais eram os parzinhos enlaçados para lhes dar pedirem a identificação e os levarem para a prisão.

É importante que os putos novos saibam que o fascismo não era só um sistema político, mas que era também um modo de vida que nos envenenava a todos e que conspurcava aquilo que existia de mais caro, mais imediato e mais sincero em todos nós...

E esse tipo de permissividade que, apesar de tudo, se vive hoje e a naturalidade com que actualmente se encaram coisas que eram consideradas grandes pecados, são resultantes do 25 de Abril. O simples facto de um tipo se estender em cima de uma relva não era permitido... "

Zeca Afonso

daqui:

http://aja.pt/ficheiros/zecaescola/Didacticadeunidade.pdf

sexta-feira, 28 de julho de 2017

“O Zeca Afonso é a referência... "

“O Zeca Afonso é a referência principal da minha vida”

“O José Afonso é a referência principal da minha vida, com muita alegria e orgulho. Penso que toda a gente da minha geração, que esteve desperta para os valores da solidariedade, teve, e tem ainda, o Zeca Afonso como referência. Ele foi como que um mestre para a minha geração! É certo que alguns andaram afastados do Zeca – andaram distraídos! -, e, hoje, isso também acontece.

Devo muito ao Zeca Afonso. E a minha geração, que hoje vive estes valores humanos; estes valores de solidariedade; que combate o neoliberalismo; estas políticas assassinas e desgraçadas… ainda tem por referência, e vive, o espírito do Zeca Afonso. Eu canto o Zeca Afonso porque acho que ele enriqueceu a minha geração.”

“Conheci-o pessoalmente e cheguei a tocar com ele. O Zeca Afonso era um homem muito acessível. Cantei só uma vez com ele, em Friume, Vila Real. Ele como que mal sabia tocar e cantar, fazia-me sentir igual a ele! Isso, hoje, até me faz rir. O Zeca Afonso era um homem extraordinário…

“Homem culto, extraordinário. E isso faz-nos falta hoje!”

daqui:

http://etcetaljornal.pt/j/2013/10/jose-silva-a-ideia-que-quero-fazer-passar-do-zeca-afonso-e-a-de-um-homem-culto-militante-solidario-e-nao-a-de-um-distraido-como-distraidos-andam-os-portugueses/

foto: Zeca em Coimbra, tendo o Mondego e a cidade como "pano" de fundo.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

"e o mar é tão grande"

"Distraído, como sempre, José Afonso foi embater num pescador, que estava no areal remendar as redes", contou Alice Brito (aluna de Zeca), adiantando que nunca mais se esqueceu da resposta dada pelo pescador: "e o mar é tão grande"

Zeca teve sempre grande predileção pelo mar. Pelo mar "navegou" nas mãos de um velho missionário, o "homem das barbas brancas", quando tinha 3 anos. Das viagens pelo Atlântico e pelo Índico, das férias que passava com o irmão e o tio Filomeno, na Figueira da Foz, dos poemas que cantou, da poesia que pelos seus dedos escorria.

"Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar...

Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo"

O mar pode ser grande, mas imensidão do mar é tão e mais pequena, que a sua voz que atravessou todos os mares e navegou por todos os sete continentes.

"Zeca, com aquela elasticidade física de que a natureza o dotara, imitava os entendidos, dando grandes saltos para as ondas e não menos e grandes e ritmadas braçadas..." (1)

(1) - Um Olhar Fraterno de João Afonso dos Santos

foto: Zeca e o irmão João, com o tio Filomeno.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

«Joguei um ou dois anos futebol...»

«Joguei um ou dois anos futebol nos juniores da Académica»

Aproveitava um pouco a Mocidade Portuguesa para fazer umas jogatanas de «fotebol qu'induca e fado qu'instrói». Ia ali para o campo de Santa Cruz jogar umas boladas. (...)

Formávamos equipas várias interturmas e, no meio de grandes sarrafadas, fazíamos aí futeboladas, que se prolongavam...

Um belo dia joguei na Académica, apesar de não ter grandes condições físicas, o próprio Esteves que foi meu professor... dizia-me «Oh Cerqueira, não jogue».

Zeca acabou por jogar a extremo-direito mas jogava pouco pois, como refere, só aguentava vinte minutos.

Anos mais tarde iria dedicar-se ao judo: - Fui mesmo um viciado no judo e até parti uma perna em dois sítios.

foto: Zeca a jogar à bola com José Jorge Letria.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Manuel Freire

"A maior herança do Zeca tem a ver com o aspeto musical.

Porque o exemplo dele como cidadão chega a pouca gente, já a sua música chega a muita gente. Foi um criador genial, um homem que compôs coisas fantásticas, fez coisas lindíssimas. Algumas a pender para o surrealismo, umas com muita graça. E é essa a herança, digamos assim, principal hoje em dia, ligada também à sua postura enquanto cidadão, procurando sempre uma situação mais justa para si e para aqueles que o rodeavam. Mas é na parte musical que a coisa se estende a mais pessoas.

O Zeca era um homem normal, cheio de dúvidas e de falhas, mas era uma pessoa da qual eu guardo uma recordação, como amigo, muito terna e muito grata. Mas nada o colocava para ser logo identificado como um ser absolutamente excecional. Era um fulano normal que era um grande intérprete e um grande criador."

daqui:

http://www.esquerda.net/dossier/o-que-aprendi-de-mais-importante-com-o-zeca-tem-ver-com-uma-postura-em-relacao-ao-mundo

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O "Tosse Tosse"

"O barquito era o catalisador dessa subversão do quotidiano. À noite o António Barahona trazia os remos e as redes para o quarto. O nosso quarto ficava no rés-do-chão, de tal modo que o Zeca entrava pela janela que dava para a rua. Entre os pescadores, o barco era alcunhado por "Tosse, Tosse", uma referência erótica às nossas viagens e noitadas pela ria de Faro. Para além disso, eu era a única mulher que ia no barco ao lado do António Barahona, do António Bronze, do Zeca e do Pité."

«Era (Pité) o grande amigo e companheiro do Zeca Afonso. Hostilizado pela sua cidade, fechado, foi aluno do Zeca, com quem vagueava pelas ruas de Faro até altas horas da noite. O Zé Afonso era um tipo completamente despistado, um tipo distraído ao máximo, a quem estava sempre a acontecer coisas inimagináveis. Às vezes, ele e o Pité afastavam-se, iam provavelmente fazer nudismo. Um dia, o Zeca vinha com as cuecas molhadas que trazia na mão. Entrou desse modo na sala de aula enquanto poisou as cuecas em cima de uma secretária». (1)

"E juntos vivemos situações interessantes a partir do tal ciclo do barco do "Tosse, Tosse", o "barco do diabo", que um amigo nosso pintou como se fosse um bergantim. (...)

Nesse "barco do diabo" fazíamos viagens fantásticas ou fantasmas. Umas vezes, eu e o Pité através da ria, outras vezes o Pité e o Barahona, outras vezes eu, o Pité, o Barahona e também a Luiza Neto Jorge." (2)

(1) - Luiza Neto Jorge
(2) - Zeca Afonso

fonte: "Livra-te do Medo" de José A. Salvador

sexta-feira, 21 de julho de 2017

João Carlos Callixto - investigador


"Faz todo o sentido falar em herdeiros da música do Zeca Afonso. Acho que é mesmo impossível não falar, ao pensar na música portuguesa das últimas duas décadas e meia. Portanto, praticamente desde a morte dele"

"é impossível pensar em Deolinda, Diabo na Cruz e Criatura sem pensar na obra do Zeca Afonso". "São projetos que têm este espírito que o Zeca Afonso tinha de mistura de várias referências, de preocupação com as letras. De, a nível musical, não se fechar dentro de uma gavetinha"

"O Zeca acabou por se transformar num nome que cruza públicos, cruza repertórios e que não se fecha de maneira nenhuma dentro do âmbito das ditas canções de intervenção ou dos repertórios dos cantautores"

"Por isso é que se diz tantas vezes que estas novas gerações do hip-hop se reclamam um bocadinho do legado da canção de intervenção. Não quer dizer que para o hip-hop seja a única coisa que importa do trabalho do Zeca"

"essa também é a riqueza do Zeca Afonso, dar-se para tantos géneros musicais". "É um dos maiores génios da música portuguesa do século XX, isso é indiscutível"

daqui:

http://www.cmjornal.pt/cultura/detalhe/zeca-afonso-um-artista-que-deixou-sementes-para-as-geracoes-seguintes

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Homenagem - 27 de janeiro de 1984 - Braga

Missiva de Zeca Afonso lida por Francisco Fanhais num espetáculo em sua homenagem, que teve lugar no dia 27 de janeiro de 1984 em Braga.

"...Esta festa não pode ser só uma homenagem a um homem, seria bem pouco! Tem que ser, também, um encontro de pessoas que recusam a anestesia que o sistema nos quer impingir e sobretudo um apelo à juventude para que mantenha sempre um espírito crítico e uma atitude de esclarecida resistência face aos valores que a sociedade capitalista nos pretende impor. E se é certo que a situação actual não é a mesma de antes do 25 de Abril, importa manter a capacidade de indignação e sermos capazes de rejeitar a hipocrisia dos detentores do poder.

Encontrando-me actualmente numa fase de pouca actividade física reafirmo a disposição de me deslocar, mais tarde, a Braga, onde espero reencontrar os amigos e dialogar e conviver com os jovens e com todos aqueles por quem a justiça e a fraternidade são a razão da sua luta.

Obrigado companheiros, um abraço do Zeca".


quarta-feira, 19 de julho de 2017

José Jorge Letria

“Existia entre mim e o Zeca Afonso uma verdadeira fraternidade que me marcou para a vida.

Um dia íamos no carro conduzido pela Zélia, mulher do Zeca, a caminho de Santiago de Compostela. Já perto da fronteira norte de Portugal, abrimos a mala do carro e descobrimos que transportávamos alguns milhares de panfletos denunciando as condições em que se verificara o assassinato de Amílcar Cabral. Se nos apanhassem com eles, seríamos logo detidos.

O Zeca era mesmo assim: distraído, combativo, corajoso e sempre imprevisível. Mas era ele! E era imensa nossa amizade e a nossa admiração por ele."

daqui:

http://alumni.letras.ulisboa.pt/

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O Zeca era um gajo muito bom

"Era um gajo muito bom. Era farol mas também era regaço, era riso mas também era profundidade intelectual. Era o Zeca, pá! (...) era um indivíduo que, para além de extremamente inteligente, era extremamente humilde e de uma grande coragem física e intelectual. E, às vezes, a coragem intelectual é bem mais difícil de sustentar do que a física.

O Zeca era um gajo de uma dádiva total, solidário como ninguém, humilde, capaz de encontrar nas pessoas mais humildes coragem e capacidade de luta que o galvanizavam também a ele. (...) O Zeca era um homem comprometidíssimo com a luta pela liberdade, ia a todas.

Da maneira como se dava na totalidade, participava em tudo e não cuidava de si. Cantava em condições precárias, não tinha tempo para comer, não comia decentemente... "

Carlos Guerreiro in "Esquerda.net"

foto:

Zeca Afonso, em 1980, no espetáculo do 4º aniversário da Cooperativa Nascente, Espinho, com Julio Pereira​, Henrique Tabot​ e Guilherme Inês​.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Zeca - O homem comprometido

«Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define esse compromisso, mas o conjunto de circunstâncias que o envolvem com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta»

Semanário Se7e - 27 de novembro de 1985 - Viriato Teles

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Prémio Casa da Imprensa

Zeca recebeu este prémio em três anos seguidos 1969-1970-1971.

1969 - "Contos Velhos Rumos Novo"

1970 - "Traz Outro Amigo Também"

1971 - "Cantigas do Maio" (considerado o melhor disco de José Afonso)

Nesta foto, Zeca Afonso recebe das mãos da jornalista Manuela de Azevedo (faleceu este ano com 105 anos), o prémio da Casa da Imprensa de 1971, num espectáculo realizado no Teatro de São Luís.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A canção é uma arma

A canção, tornou-se numa arma como diz o cantor e, a partir dos anos 60, partilhou fraternalmente o grito alegre e intenso de revolta contra o colonialismo e contra as ditaduras que mancharam a História de Portugal e Brasil.

Coimbra, cidade da Universidade e dos estudantes, onde reinava o fado e a balada, revelou-se um dos berços da canção política.

Já nos anos 30 e 40 o neo-realismo tinha reunido na cidade um número notável de poetas de grande fôlego, alguns dos quais, como Luís Bettencourt, levaram a poesia às vozes do fados e das baladas, unindo as duas grandes expressões culturais coimbrãs que são a canção e a poesia.

A partir do fado e da balada, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros, vão juntar às toadas tradicionais letras e poemas claramente politizados, especialmente bem recebidos pelos estudantes que começavam a sentir na pele a pressão de uma guerra injusta para a qual a ditadura os empurrava sem piedade.

A canção junta pessoas e vozes. A canção fala e faz falar. Grita. Entra nas Universidades, em muitas igrejas e espaços paroquiais, em clubes operários. A canção é perseguida e proibida. Autores como Zeca Afonso ou Chico Buarque de Holanda são presos inúmeras vezes.

Presos devido às palavras a arder que nos traziam. Presos pela dignidade com que resistiam. Presos pela palavra que insistiam em espalhar.

Adriano cantava os poetas. Em primeiro lugar Manuel Alegre, e outros depois como Manuel da Fonseca, António Gedeão, Raúl de Carvalho e muitos mais. O Zeca cantou menos os poetas mas também o fez desde Luís de Camões, Jorge de Sena, Luís Pignatelli, António Quadros, Ary dos Santos, Fernando Pessoa ou António Aleixo.

Além dos poetas, Zeca escreveu muitas das letras que cantava. Mas também recolheu toadas, melodias e letras da tradição popular das Beiras, do Alentejo, dos Açores, pondo muitas vezes em destaque o seu profundo apelo à liberdade.

Zeca Afonso tomou ainda para si a influência da música africana criando canções que de alguma forma uniram as lutas de um e outro lado do Oceano, tornando claro que a luta dos africanos e dos portugueses era a mesma.

E pode dizer-se sem perigo de demagogia que essas canções também contribuem para o traçado do espaço da lusofonia.

Daqui:

http://jornalcultura.sapo.ao/dialogo-intercultural/na-ponta-do-pe-na-boca-do-povo

terça-feira, 13 de junho de 2017

Alípio de Freitas

(Bragança, 17 de fevereiro de 1929 – Lisboa, 13 de junho de 2017)

Sacerdote católico que, no Brasil, se envolveu nas lutas dos camponeses contra o poder dos latifundiários da cana do açúcar, acabando por ser preso pela DOPS brasileira (Departamento de Ordem Política e Social) o mesmo que a PIDE em Portugal.

Foi torturado e Zeca homenageou-o com o tema Baía da Guanabara, mais tarde Alípio de Freitas.


Tive o prazer de o conhecer pessoalmente e agradecer-lhe o que fez contra a ditadura, tenha ela a cor que tiver, ou em que país for.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Durval Moreirinhas

(Celorico de Basto,11 de abril de 1937 - Lisboa, 12 de junho de 2017)

Na vida e obra de Zeca Afonso dos seus tempos de Coimbra, para além do inevitável Rui Pato, três outros nomes lhe estão associados com frequência: José Niza, Jorge Godinho e Durval Moreirinhas.

Foram José Niza e Durval Moreirinhas os primeiros a acompanhar Zeca somente à viola, nos temas "Minha Mãe" e "Balada Aleixo" inseridos no LP Coimbra Orfeon of Portugal em 1962.

Para além das visitas a vários pontos da Europa, África e América, foi com estes três elementos, o primeiro vídeo (que se conheça) de Zeca, gravado em Frankfurt em 1963 para a TV pública alemã HR (há outro mas nesse Zeca toca a solo).


O último evento onde Durval Moreirinhas participa acompanhando Zeca, foi na Festa da Amizade nas Caldas da Rainha a 5 de fevereiro de 1983.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Otelo fala de Zeca

Otelo Saraiva de Carvalho só conheceu e deu um “abraço emocionado” a José Afonso depois do 25 de Abril de 1974, o golpe que quis que tivesse como senha uma “canção do Zeca”.

“Podia ser o ‘Venham mais cinco’ ou ‘Traz outro amigo também’. Acabou por ser a ‘Grândola’, porque as outras estavam no índex da censura”, recordou Otelo em entrevista à agência Lusa, em que fala sobre “o turbilhão de amizade” que o uniu ao cantor que o apoiou nas presidenciais de 1976 (e nas de 1980), quando teve 16,46%, mais do que Octávio Pato, apoiado pelo PCP. Foram as canções de Zeca e o seu génio a cantar “música de intervenção de caráter político” que o “estimularam enormemente” na sua consciencialização política (...)

Entrámos num turbilhão de amizade, de companheirismo muito grande”, lembrou, apelidando “o Zeca o irmão que gostaria de ter tido” e não teve.

“Foi uma grande campanha e sempre com o Zeca ao meu lado. Ele foi um companheiro notável”, sintetizou, afirmando que também o ouvia como conselheiro político. O próprio músico recorda, na entrevista para livro biográfico de José António Salvador “O Rosto da Utopia” (Edições Afrontamento): “As propostas de Otelo foram uma alternativa revolucionária praticável para este país. Podia ter sido um caminho para evitar que este país seja um porta-aviões do imperialismo americano, do subimperislismo europeu (sobretudo o alemão).”

O militar de Abril emociona-se ao recordar a última vez que esteve com José Afonso. Otelo estava preso em Caxias, em 1986, e o cantor, já muito doente, foi “despedir-se” de si, meses antes de morrer. Como o compositor de “Venham Mais Cinco” não podia subir ao parlatório, o diretor da prisão autorizou que fosse o militar a vir, a sentar-se num carro — ele e Zeca nos bancos da frente, as duas companheiras atrás. José Afonso, o cantor, tinha dúvidas se teria valido a pena “a luta” desde os tempos da ditadura, e achava que o seu trabalho musical iria ser esquecido.

“Aí, quase me exaltei. ‘Ó Zeca, pá, nunca digas uma asneira dessas. Tu foste um gajo notável e o que fizeste vai perdurar, pá, até ao fim do mundo'”, recordou. “Tu disseste profundamente às pessoas coisas, aquilo com que elas alimentaram uma esperança grande numa alteração, numa renovação, numa liberdade. Isso é inapagável, é inapagável'”, concluiu Otelo.

daqui:

http://observador.pt/2017/02/21/jose-afonso-foi-otelo-quem-escolheu-o-musico-para-cantar-senha-do-25-de-abril/

foto: Zeca na campanha de Otelo à Presidência em 1976

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulheres de Abril - Maria Vitória Vaz Pato

Eu sou natural do Porto, e aí fiz os meus estudos. A minha mãe, que se licenciara em Farmácia em 1928, era uma católica praticante, sem cultura política e, por isso, naturalmente receptiva à propaganda do regime de Salazar.

Data dessa época (anos 50) o início da minha crítica à Igreja, que culminou nos anos 70 por um processo de abandono da prática religiosa seguido, mais tarde, após madura reflexão, de uma rotura profunda com o conteúdo da fé cristã, seus dogmas, fundamentos, assim como posições político-sociais.

(...)

A minha casa passou a ser o local de compilação e armazenamento do “Direito à Informação” (1)

O trabalho durava até de madrugada, na sala, com as persianas e os cortinados fechados, para não se descobrir luz do exterior, e falávamos com discrição. Geralmente ouvíamos baixinho um disco “revolucionário” de 45 rotações, Zeca Afonso era o mais habitual. Estes discos eram habitualmente apreendidos pela PIDE nas discotecas, mas por “conhecimentos especiais” havia sempre um de nós a conseguir que um editor lhe “vendesse/cedesse um disco”. As editoras discográficas mantinham sempre escondido um stock de uns tantos discos que vendiam depois a pessoas de confiança. Rodávamos o disco até à exaustão e cantarolávamos baixinho: “Os vampiros - eles comem tudo, eles comem tudo...”

(1) - O conteúdo dos DI, (...) tinha como objectivo reunir e difundir informações que não apareciam nos jornais por serem cortadas pela censura, dando–se especial atenção às notícias sobre a luta anticolonial. Saíram 18 números de 1963 a 1968.

daqui:

http://www.esquerda.net/artigo/mulheres-de-abril-testemunho-de-maria-vitoria-vaz-pato/48379



terça-feira, 30 de maio de 2017

Cantares - edição clandestina

Da 1ª edição clandestina - Edição SCIP - AAEE de Lisboa / A.E.I.S.T. - 1969

"Incontornável edição clandestina (esforço da vanguarda das associações de estudantes), substancialmente diferente da da Nova Realidade (Tomar, 1966), ganha a importância da perseguição movida contra tudo o que levasse a assinatura de Zeca Afonso. O regime fascista foi sempre muito claro em relação ao Autor de Grândola, Vila Morena: havia que silenciá-lo!"

daqui:

http://frenesilivros.blogspot.pt/2016/04/cantares.html

Menino do Bairro Negro

Nota: Embora as fotos apresentem meninos negros, a letra nada tem a ver com a negritude da pele como Zeca nos explica aqui:

«O conhecimento do Porto de todas estas realidades é que me deu o tema do – Menino do Bairro Negro – Expliquei mais tarde que negritude de que falava a canção, não dizia respeito à cor da pele, mas à condição de meninos explorados diagnosticados por José Castro no seu livro Geopolítica da Fome .»

Fotografias do moçambicano Ricardo Rangel

(as fotos, como refere Alexandre Pomar, teriam sido enviadas pelo Zeca de Lourenço Marques com a Autobiografia e as notas sobre os poemas)

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Zeca e o Rock

"O rock é uma música aceite, não só pela juventude burguesa, como até pela juventude operária. É o gosto dominante… Antes do rock português, há uns anos atrás, havia o chamado nacional-cançonetismo, imposto pelo regime como música representativa do nosso génio. O rock que se canta para aí, pelo menos, teve esta virtude: ajudou a liquidar o nacional-cançonetismo.

Quando apareceu a chamada balada, por exemplo, também se caiu num certo cansaço. As canções eram um bocado primárias, à base de dois tons ou três na viola. E tudo passava por balada… É possível que esses sujeitos, dentro do condicionamento existente – que o rock é, de facto, um padrão praticamente instituído – consigam, daqui a uns dois ou três anos, fazer coisas com um pouco mais de imaginação. Sem terem de aleijar a língua portuguesa para a meterem dentro dos compassos do rock. Que é uma coisa que se ouve com frequência."



Entrevista a Maria Eduarda publicada na edição nº145 de 9 de dezembro de 1981 do jornal “em marcha”

Foto: Zeca com Júlio Pereira em 1983

terça-feira, 23 de maio de 2017

“Com as minhas tamanquinhas”

Júlio Pereira

"O Zeca viveu de uma maneira muito forte o 25 de novembro. Está expresso de uma maneira criativa num disco que, infelizmente, os media acharam que era o pior disco daquele ano: “Com as minhas tamanquinhas”, onde imita o Eanes e faz um tema a um coronel do 25 de Abril - “Como se faz um canalha”.

Um disco que é talvez o mais panfletário. É curioso, passados este anos todos, imaginares que, naquela altura, o país já não ia muito à bola com o Zeca.

Como é que os media conseguem considerar que é o pior disco ano quando inclui temas intemporais, como o “Alípio de Freitas”, “Teresa Torga”, “Os Índios da Meia-Praia”...?

Mas não nos podemos esquecer que, a partir desta época, acontecem duas coisas em simultâneo: a degradação da sua saúde e o que o país está a viver, a nível político e social.

O Zeca foi-se muito abaixo nessa altura. Sendo seu amigo, ia partilhando todo o seu quotidiano. Com o agravar da doença, a única coisa que nos preocupava, aos amigos, era mantê-lo animado."

daqui:

http://www.esquerda.net/dossier/grande-admiracao-pela-juventude/47150

Júlio com Zeca na Festa do Avante - 1980

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Carta de Zeca à direção da SMOG

José da Conceição, um dos membros da direção da Música Velha (assim era designada a Sociedade Musical Operária Grandolense), foi quem convidou e acolheu Zeca Afonso no evento realizado a 17 de maio de 1964:

«O espectáculo foi de facto excepcional. (...) Há um episódio engraçado, porque no programa aparece o nome de Júlio Abreu, que era o nome de um ciclista. O tipo da tipografia devia gostar muito de ciclismo, ou devia estar a falar em ciclismo quando estava a fazer o cartaz, porque o certo é que se enganou e, em vez de Fernando Alvim, pôs o nome de Júlio Abreu. Também aparece lá o nome de Rui Pato, que também não foi. Como o Zeca cantava sempre com o Rui Pato, ficámos convencidos que não precisávamos de o convidar, porque o Zeca trataria disso. Quando o Zeca chegou, não havia Rui Pato, mas não houve problema porque ele se acompanhou a si próprio.»

Fim de citação

In Zeca Afonso "Livra-te do Medo" de José A. Salvador.

Rui Pato​ nesse ano iria fazer 18 anos (nasceu a 5 de junho de 1946) e, ao contrário do que disse José Conceição (a memória ao fim de alguns anos atraiçoa-nos), o nome do Rui foi referido como podemos ler nesta carta que Zeca enviou, após confirmação do evento. Nela, envia o contacto à direção da Música Velha, do pai do Rui, Albano da Rocha Pato. Tal não deve ter acontecido e assim Rui não acompanhou o Zeca nesta sua deslocação a Grândola.


terça-feira, 16 de maio de 2017

Achégate A Mim, Maruxa

Júlio Pereira

"Uma vez, em Vigo, ao pé de um hotel onde nos hospedámos, estávamos numa espécie de uma ponte e o Zeca diz-me: “Eh pá, se eu tivesse aqui o gravador...”. Fui ao hotel buscar o gravador. O Zeca gravou a música toda do “Achégate A Mim, Maruxa”, que tinha a letra da Rosalía de Castro. Pensei: “Isto é que é ser génio”. Recordo-me de ter falado noutra altura com o Zeca sobre a genialidade em geral e de ele estar totalmente em desacordo com essa história da genialidade. Para ele, a genialidade era o trabalho. Mas, naquele dia, deu-me um amostra de que genialidade é outra coisa. Vi, pela primeira vez, alguém criar algo sem esforço, sem voltar atrás, sem trabalho. A música saiu exatamente como a gravei. Mas acredito na tese do Zeca, as coisas nascem do nosso trabalho, e é muito raro alguém compor uma música toda sem qualquer esforço e emenda."

daqui:

http://www.esquerda.net/dossier/grande-admiracao-pela-juventude/47150

foto - Vigo - com Janita Salomé, Júlio Pereira e Sérgio Mestre



segunda-feira, 15 de maio de 2017

Tancos

Zeca com os pára-quedistas de Tancos, que seriam derrotados no dia 25 de novembro pelos comandos de Jaime Neves, chefiados por Ramalho Eanes.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

ELA - Esclerose Lateral Amiotrófica

A doença que matou Zeca Afonso

Doença pouco conhecida na época, levou Zeca a Inglaterra, Roménia, França e Estados Unidos à procura de cura para o mal que o iria vitimar.

Sobre a Clínica João Montezuma Carvalho, em Coimbra onde andou cerca de um mês, diria Zeca em agosto de 1983 a José Salvador que lhe estava a escrever a biografia:

"Oh pá, aquilo é bestial. Estão a chegar estrangeiros de todo o lado. Isto é uma doença incurável, um vírus* como a sida. Daqui a dois meses já sei se o vírus foi ou não morto. Sem este tratamento, eu durava um ano e meio, ou dois anos. Depois ia para as colheres. Eh pá, tu nem imaginas o estado de degradação em que a gente fica"

“Quando o conheci ele já trazia o diagnóstico da doença porque já tinha percorrido vários países. Foi o professor Fernando Tomé, que era amigo dele, que falou comigo porque sabia que me dedicava a esta doença. Vi-o várias vezes, segui-o durante o tempo que ele teve de vida”, conta a neurologista Maria de Lurdes Sales Luís, a médica do cantor e a pessoa que criou a consulta em Portugal (Hospital de Santa Maria). “Ele tinha consciência da gravidade da doença. Sabia o que tinha, que era uma doença progressiva. No caso dele, começou por um dos membros e depois foi progredindo para a fala, para a respiração. Ele nunca se queixou, nem falou sobre o que ia interferir na sua carreira profissional.

“Lembro-me de que quando lhe deram o diagnóstico [antes de começar a ser seguido em Santa Maria] lhe disseram logo quanto tempo de vida tinha. Lembro-me de que havia canções que ele ainda queria gravar mas que a doença não lhe permitiu a dada altura. Lembro-me da coragem que teve para subir ao palco. E do sentido de humor e genialidade dele, que mesmo doente não queria tristezas”, recorda o sobrinho João Afonso, também ele músico. “Uma das coisas que mais recordo do final da vida dele foi nós a limparmos-lhe as lentes dos óculos e coçar-lhe a cabeça, que eram coisas que ele não conseguia fazer”.

“Quando se dá um diagnóstico [de ELA] a um doente é como despejar-lhe um balde de água gelada em cima”, diz ao Observador Anabela Pinto, membro do conselho científico da Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica (APELA).

Obs: o desafio que correu mundo do balde de água gelada pela cabeça abaixo, teve como intenção arrecadar fundos para ONG que combate a Esclerose Lateral Amiotrófica.

Zeca iria sobreviver cerca de 5 anos a esta doença progressiva. Embora sem o nome da doença definida, o relatório do Departamento de Neurologia sediado em Londres de 29 de julho de 1982, já apontava para a degeneração.

Do que se queixava Zeca ao neurologista, nesse exame em Londres:

"Seus sintomas foram progressivos ao longo dos últimos vinte meses. Inicialmente ele notou uma tendência para os dedos ficarem em posições estranhas e subsequentemente tem havido crescente fraqueza e dificuldade com o uso de seus braços, particularmente o braço esquerdo. Houve dificuldade em manusear e tocar instrumentos musicais e, mais recentemente, dificuldade em levantar os braços para tarefas como barbear e pentear os cabelos. Durante este tempo ele se sentiu geralmente fraco e falta de energia. Ele não notou qualquer perturbação na fala e teve apenas dificuldade passageira transitória em três ou quatro ocasiões. Ele não nota qualquer mudança em sua caminhada ou dificuldade com a função do esfíncter. Não houve entorpecimento ou formigueiro nos membros"

* Não é um virus. Na ELA, os neurónios motores (cabos eléctricos) que conduzem a informação do cérebro aos músculos do nosso corpo, passando pela medula espinhal, morrem precocemente. Como resultado, esses músculos, que são os que nos fazem mexer (músculos estriados esqueléticos), ficam mais fracos.

fontes:

revista "Domingo" do CM
http://www.apela.pt
http://observador.pt

foto:Jorge Paula

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Luis Goes

"Falar do Zeca é falar de uma pessoa inesquecível. Do seu talento, do seu lirismo, no fundo, para mim, o Zeca foi sempre um lírico, punha as palavras também ao serviço do coração. Eu sei que era assim. (...) Eu durante muito tempo não fui repúblico em Coimbra, porque a minha mãe vivia lá, pois eu sou natural de Coimbra. Devo ser talvez, o único cantor conhecido, pelo menos do nosso tempo, que tenha nascido em Coimbra, de maneira que tinha casa.

O Zeca já era casado, era a primeira mulher, tinha dois filhos e a minha casa era uma "República", e então, muitas vezes, o Zeca chegava e dizia assim: "à D. Leopoldina", que era a minha mãe, "não se importa que os miúdos fiquem aí?" E a minha mãe respondia: "à Sr. Doutor", a minha mãe tratava toda a gente por doutores, porque era costume lá em Coimbra, um indivíduo desde que tivesse capa e batina tratava-se logo por senhor doutor, desde o primeiro ano, "isto é uma maravilha, hem?". Entretanto ficavam lá os dois miúdos e o Zeca esquecia-se. Um dia, a minha mãe, ao fim de dois dias, disse-me assim: "à Luís, desculpa lá, eu sou muito amiga do Zeca, mas ele. . . quando é que? .. " E eu: "... O quê? ainda cá estão?..." Tinha-se esquecido. Depois ia buscá-los."

Zeca de capa e batina na cidade do Cabo - África do Sul - 1949

domingo, 7 de maio de 2017

Ação solidária

O Movimento Pró-Divórcio, instituído em 20 de maio de 1974, manifesta na sua essência, o desejo de alargar o direito ao divórcio a todos os cidadãos e não apenas àqueles que casam pelo civil e que os filhos ilegítimos deixem de ostentar este epíteto por lei.

A 23 de outubro de 1974, realiza no Coliseu dos Recreios, um Sarau de apoio ao MFA revertendo a receita ao Banco do Hospital D. Estefânia. Este movimento conseguiu em janeiro de 1975, uma revisão da Concordata, com a consequente modificação do Código Civil de 1966, permitindo-se o divórcio civil para os casamentos católicos.

"Artigo 1790.º - (Casamentos indissolúveis por divórcio)

Não podem dissolver-se por divórcio os casamentos católicos celebrados desde l de Agosto de 1940, nem tão-pouco os casamentos civis quando, a partir dessa data, tenha sido celebrado o casamento católico entre os mesmos cônjuges.

Início de Vigência: 01-06-1967"

"NOVA LEI DO DIVÓRCIO

DECRETO-LEI N.º 261/75, DE 27 DE MAIO

Institui-se o divórcio por mútuo consentimento"

O cartaz do evento

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Cooperativa Árvore

19-4-1970

Quando foi anunciada a presença do Zeca na Cooperativa Árvore e Zeca não apareceu. Reparar na anotação manuscrita do PIDE no relatório.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Hélida Carvalho - aluna de Zeca Afonso

“Barreiro, 4 de Outubro de 1967

(Quarta-feira)

Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram 3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser mais que velho. Somos o 7º A e como não chumbou nem veio ninguém de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o nº 34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é o lugar dos mais altos.

Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal, dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política. Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:

- Vocês são o 7º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou chatear

Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começava a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes não sejam um modelo de perfeição e é bem-parecido, digamos que um homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas. Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo conjecturas. Às tantas o bichanar foi subindo de tom e já era uma algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se, efectivamente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, já em pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia. Depois, veio o mais surpreendente:

- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.

Gargalhada geral.

- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em palhaçadas.

Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto, calmo, simpático.

- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.

Começámos a olhar uns para outros, espantados, nunca na vida nos tinha passado pela frente um professor com tamanha ousadia.

- Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse, como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que nos governa é uma ditadura desumana e cruel.

Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo branco, que se sente mas não se apalpa.

- Repito – eu não percebo nada desta disciplina que vos venho leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria. Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque, no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7º ano e puderem entrar na Faculdade. Isso, vocês têm que fazer. Estudar. Para serem homens e mulheres cultos para puderem combater, cada um onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que lutar por um novo país.

Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha, basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida, mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão, educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei. Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país, carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e cultural.

Outra coisa, vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas. Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos com os outros. Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e mulheres de Portugal. Não concordam?

Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.

Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que fenómeno é este que aterrou em Setúbal?

Já me esquecia de escrever. Esta ave rara, o nosso professor de Organização Política, chama-se Zeca Afonso.

Barreiro,15 de Novembro de 1967
(Quarta-feira)

Hoje foi dia de haver aula de Organização Política, que são as aulas que nós mais gostamos. O professor, Zeca Afonso, é fabuloso. Não tem nada a ver com os outros, sempre austeros, formais e disciplinadores. Este homem rompe com todos os convencionalismos. Aparece sempre vestido de forma descontraída, amarrotado, acho que nunca, sequer, o vimos de fato completo. Gravata, jamais. Nem deve ter nenhuma, ou talvez tenha para ir a casamentos e baptizados. Usa umas calças, quase sempre sem vinco, umas camisas com o colarinho aberto e camisolas de malha, largas, sem grande trambelho. Às vezes, traz a gabardina que atira para cima da cadeira; outras, vem apenas em corpinho bem feito, deve deixar os abafos na sala dos professores. Entra na aula sempre com um ar simpático, sorridente, sem mostrar muito os dentes, que não são mesmo um modelo de perfeição e ele deve ter consciência disso. Mas também não importa. É um homem bonito, sem ser sedutor. Não sei bem explicar, mas acho que é mais ou menos isto: ele tem umas feições agradáveis de se olhar, pelo menos pelo sexo feminino, mas, depois, não tem sex appel ( não sei se é assim que se escreve.). Quero dizer com isto que não deve ser mulherengo, tipo aqueles homens bonitos que vivem no engate, apenas porque sabem que são jeitosos. Na turma, nós somos, na esmagadora maioria, raparigas, algumas até muitas giras, mas ele nunca dirigiu, a nenhuma de nós, qualquer espécie de olhar que indiciasse malícia. Não. Fala connosco como se falasse com as filhas, sem nenhuma espécie de maldade. Também não faz diferença entre rapazes e raparigas, como o professor de História que se nota, à légua, ter um fraquinho por mim e pela Maria José, em detrimento dos rapazes. Mas o professor de História é podre de velho, já deve ter uns 50 anos e, aqui para nós, até é um bocado baboso. Aquele tipo de velhos que olham, babando-se, com cobiça. Às vezes, está a dar a aula e a olhar-me para as pernas, mal a bata sobe um bocadinho. Só falta salivar. Chiça. O homem é mesmo parvo. Um dia, à saída do liceu, até me ofereceu boleia para o combóio mas não fui nessa. Sei lá se, depois, no carro, ele não esticava a mãozinha para me apalpar as pernas. É preciso cuidado. Quando contei isto ao Carlos Daniel, que é quase meu irmão, ele achou que o velho estava a tentar engatar-me e disse-me que ia ter com ele e dar-lhe um murro no focinho, mas eu empinei-me e respondi que seria uma estupidez porque ele acabaria expulso do liceu e haveria um falatório sem fim. Às tantas, virou-se para mim e teve o descaramento de me dizer que a culpa era minha porque vou para o Liceu com mini saias. Os rapazes, aliás, os homens, são uns machistas. A alarvidade deles é sempre descontada em nós.

O Zeca Afonso é diferente do professor de História, trata tudo por igual, não mostra nenhuma espécie de preferência. Há dias que vem cansado. Entra, senta-se à secretária, dita o sumário, assina o livro de ponto, fecha o livro, empurra-o para um canto da secretária e fica uns minutos, em silêncio, a olhar o pátio sombrio e desfolhado. É um hábito que ele tem. Acho que gosta de reflectir, antes de começar a falar. O que será que ele pensa quando “desaparece” da sala? Nesse entretanto, enquanto ele está absorto nos seus próprios pensamentos, nós vamos bichanando uns com os outros, até o falatório ganhar um volume tão intenso que ele “acorda” do transe e assume a realidade. Normalmente, levanta-se e vem falar connosco, para o meio do estrado, de costas para o quadro negro que, por vezes, é branco, depende da Carolina limpar, ou não, o pó do giz. Ele também não se importa com isso. Tanto se lhe dá. Nunca utiliza o quadro. Quando, como hoje, se sente mais cansado, ou sei lá porquê, recosta-se na cadeira, levanta os pés e as pernas, e estica-os em cima da secretária, como se estivesse na praia.

Agora já não ligamos, já estamos habituadas mas, na primeira vez que ele fez isto, entreolhámo-nos, surpresos, nunca tínhamos visto, na nossa vida de estudantes, nenhuma pose semelhante. Quando contei em casa esta cena, a minha mãe arregalou os olhos e disse-me que aquilo não eram maneiras de um professor se comportar diante dos alunos, são atitudes de gente sem grande educação, tanto pior que ele é professor, devia impor exemplo e respeito, mas eu não respondi porque, se o fizesse, iria defendê-lo e entrar em conflito com a minha mãe. É uma merda, mas nunca estamos de acordo. Muito pior ainda é o relacionamento com o meu pai, que nasceu no tempo da pedra lascada. A minha mãe já nasceu no tempo da pedra polida mas, os dois juntos, associados aos meus avós e às minhas tias, é tudo gente petrificada. Como diz o próprio Zeca Afonso, vivemos numa sociedade preconceituosa e hipócrita, onde todos fazem o que podem mas às escondidas. O mais evoluído da família é o meu tio Diamantino. Tenho que lhe falar neste professor. O Zeca Afonso pensa, em termos políticos, exactamente o mesmo que o meu pai e o meu tio. A diferença é que, aqui em casa, eles falam em surdina, como se estivessem num confessionário e estão constantemente a recomendar-me para que não repita o que ouço, muito especialmente que sintonizam, diariamente, a Rádio Moscovo, e o Zeca Afonso diz o mesmo mas em alto e bom som, sem receios, com uma coragem que admiro, como se não se importasse com as consequências.

A Inês comentou que ouviu o pai dizer que o Zeca já veio de Coimbra devido a perseguições políticas e que até já esteve preso, mas não sabemos se é verdade. Ninguém ainda teve coragem de lhe perguntar. Qualquer dia pergunto-lhe eu. Ele mostra-se tão simpático, afável e aberto que não vai deixar de responder. Uma coisa é certa: nunca nos faz nenhum tipo de advertência para não darmos com a língua nos dentes. O que fala, assume, de cabeça levantada, sem tibiezas. Gosto de gente assim, com personalidade vincada. A mulher dele tem muita sorte. Casou com um homem a sério. Não gosto de medricas que se encolhem. O Zeca mostra que se está borrifando para a Pide, não tem medo. Pensa e diz. Sem reservas. Vê-se, à légua, que é um homem de convicções fortes e que luta por um ideal político. No início, segredava-se, à boca pequena, que é comunista, filiado no partido deles, que nem sei como se chama, mas ele nunca referiu isso. Não deve gostar de rótulos. Talvez não se queira identificar. Diz apenas que toda a vida tem lutado por uma sociedade onde haja liberdade de expressão e igualdade social. O meu pai e o meu tio são comunistas, mas fazem disso um segredo que nem as pedras da calçada podem ouvir. Estão sempre a prevenir-me para fechar o bico. Não sei se o Zeca é comunista ou não, mas o que é facto é que ele, o meu pai, o meu tio e o meu avô Caetano, falam todos a mesma linguagem anti-fascista. Odeiam o Salazar. E o Zeca Afonso di-lo, sem constrangimentos. Critica o governo sem papas na língua. Diz coisas que até arrepiam, tendo em conta as recomendações que todas nós escutamos em casa. Grande homem. Cada vez tenho mais admiração por ele. Compreendo que a minha mãe recrimine a postura de ele pôr os pés em cima da secretária mas é, apenas, porque nunca privou com ele. Quem o conhece, sabe que ele é mesmo assim, um homem interiormente livre, que faz o que lhe dá na real gana, sem olhar a preconceitos, a espartilhos e a tabus. Ele próprio assegura que o ser humano tem que ser livre para ser feliz. As aulas dele são sempre espectaculares. Fala de tudo menos da disciplina. Afirma que se recusa a leccionar hipocrisia e mentiras. Diz, para quem quiser ouvir, que Salazar é um déspota, dos piores que a humanidade conheceu e que a Constituição que nos obrigam a estudar não passa de uma farsa. Praticamente, não abrimos o livro. Às vezes, manda ler umas páginas, poucas, apenas para cumprir uma missão que ele detesta, mas não emite palavra, apenas sorri, com visível escárnio, e quando o leitor termina a peça ele diz: estão a ver, só imposturas, só mentiras.

O Salazar não permite que a Constituição se cumpra. Vivemos numa vergonhosa ditadura, onde nem nos permitem respirar. Estamos amordaçados nas mais elementares liberdades. Nem as eleições são livres. Só lá vai votar quem eles querem e o escrutínio é mais uma palhaçada.

Vocês, quando forem homens e mulheres feitos, com os vossos cursos terminados, têm que reagir e lutar por um país livre e justo. Não se acobardem. Desculpem a minha relutância, sou vosso professor, mas tenho que me honrar a mim próprio para respeitar vocês. Não posso, nem quero, mentir-vos. Ensinar-vos esta disciplina, como ela está estruturada, era pisar na minha consciência e apunhalar a vossa dignidade.

Quero que, um dia mais tarde, vocês me recordem como um professor honesto e decente, que nunca se vergou. Não vou fazer das minhas aulas, um circo. Isso, é lá em Lisboa, nos gabinetes dos fascistas. Se um dia acontecer o milagre de nos tornarmos um país livre, vocês vão lembrar-se de mim e compreender melhor porque é que hoje, diante de vocês, não posso ser cúmplice desta disciplina. Entendem? Vão ter que estudar a matéria para exame, sozinhos, recuso-me a participar nesta pantomina que é estar aqui a desbobinar conceitos sem sentido. Estudem em casa. Vocês empinam isto num instante. É só decorar, como quem empina uma grande estucha. Todos os alunos passam pela situação de ter que estudar grandes fretes. Hoje falou-nos, particularmente, das suas memórias de infância e de adolescência. Curiosamente, disse que nasceu no dia 2 de Agosto. À saída da sala, quando a aula terminou, passei por ele e comentei que nasci no dia 1 de Agosto e que, apenas por um dia, lamentavelmente, não festejava o aniversário na mesma data que ele. O Zeca riu-se e disse: não te importes. O dia 1 é mais bonito, é bom sermos pioneiros de qualquer coisa. Hoje, também nos contou muitas peripécias da sua vida de estudante, em Coimbra, da sua vivência como membro da Tuna Académica de Coimbra e da sua vida de estudante. O Artur pediu-lhe para, um dia, ele nos cantar uns fados de Coimbra, ali na sala e ele prometeu que o fará. Rimo-nos, em conjunto, e ele sorriu também, parecíamos todos da mesma idade. Confessou que não foi aluno brilhante, não era muito aplicado. Também tinha tido uma vida difícil, tipo saltimbanco, frequentemente afastado dos pais e dos irmãos. Até dificuldades económicas passou. Disse-nos que, na próxima aula, vamos fazer umas sabatinas para testarmos a nossa cultura geral. Mau, mau, cheira-me a grandes barracas.

Quando saímos, o Marcelino, enquanto percorríamos o corredor, disse-me, baixinho: Este gajo, qualquer dia é lixado. Se a Pide sabe o que ele fala aqui, vai dar-lhe nos costados. Lá, em Caxias, estão muitos, por menos. Perguntei-lhe o que sabia disso, ele sorriu e disse-me: o suficiente para te dizer isto e tu também sabes.

Ficámos a olhar um para o outro. Sérios. Gostamos do Zeca Afonso. Se ele for preso, ficamos sem a pessoa mais genial deste liceu.

O Marcelino seguiu para o pátio dos rapazes e eu para o pátio das raparigas, mas acho que fomos os dois a pensar no assunto. Apreensivos.

É pá, já é 1h da manhã. Não tarda, está aqui o meu pai a chatear-me por ter a luz acesa tanto tempo. Diz que abuso, por causa da conta da luz.

Que merda, que vidinha de encolhas”.

Daqui: http://www.esquerda.net/dossier/zeca-afonso-suas-aulas-eram-absolutamente-revolucionarias/47134

O Certificado

Pedido de Zeca em 1969, de um certificado de tempo e de qualidade de serviço, ao Diretor da Escola de Lagos, para efeitos de colocação numa escola de ensino secundário o que veio a acontecer.

Qual a razão do pedido, já que Zeca era professor, embora provisório e lecionara em vários locais?

Aqui gostaria de salientar a analogia que houve com o percurso do pai José Nepomuceno Afonso dos Santos, magistrado de direito ultramarino. Foi um "saltibanco" no que ao lugar diz respeito. Esteve em Angola, Moçambique, depois Timor e voltou para Moçambique onde permaneceu até o regresso efetivo a Portugal. Zeca foi, como professor, um andarilho: Mangualde, Lagos, Faro, Aljustrel, Alcobaça, Faro de novo, Lourenço Marques, Beira (estes em Moçambique) e Setúbal onde, após 20 dias de internamento na Casa de Saúde de Belas, é expulso do ensino oficial (1967).

Mas Zeca embora expulso, requereu voltar ao ensino oficial o que conseguiu, após este pedido que fez ao Diretor da Escola de Lagos (admira-me o facto de ter sido o pedido feito a Lagos, já que Zeca teve em Faro o seu maior período de professorado em Portugal (ano letivo de 1958/1959 e de 1960 a 1964)). Requerimento aceite e Zeca vai lecionar História (e não Ciências como está mencionado em várias biografias) na Escola das Areias em Setúbal (7-10-1969 a 31-7-1970) . No ano seguinte é-lhe indeferido o requerimento e não volta a dar aulas no ensino público durante o Estado Novo.

Zeca só volta a dar aulas em 1983. É reintegrado no ensino oficial, na Escola Preparatória de Azeitão, como professor de História e de Português.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Ficheiros da PIDE

Processo de transgressão contra Fausto, requerimentos para espetáculos com Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Padre Fanhais, José Barata Moura, Manuel Freire e outros "baladistas" que aguardavam o parecer da Censura, ou a própria Comissão de Festas acabava por cancelar o espetáculo, devido à pressão exercida pela PIDE.

Os lápis e os carimbos funcionavam quase ininterruptamente pois tudo tinha que passar pelo crivo.