terça-feira, 17 de outubro de 2017

La obra de un cantautor honesto

"Tímido y frágil, su voz fue única por su timbre y sonoridad y una afinación exacta y precisa.

Y aun así nunca le agradaron lo más mínimo las luces de los escenarios. Para Afonso, tener que cantar ante un público era como tener que sacarse un diente. “Nunca canto por gusto” decía y es que Zeca, más que intérprete era un creador y un docente.

Y como muchos artistas y creadores, nunca se preocupó del aspecto comercial de su arte. Por eso cuando a mediados de los 80 contrae una extraña enfermedad llamada esclerosis amiotrófica mejor conocida como enfermedad de Lou Gehrig, en referencia al beisbolista americano de los años 30 que también la sufriera, y a medida que la dolencia va acabando con su salud y con su vida, Afonso también fue hundiéndose en la ruina económica hasta terminar en una pobreza extrema cercana a una indigencia por demás indigna de su talento y relevancia.

Como escribió alguien alguna vez, Afonso murió pobre porque nunca pactó con el sentido común, con la comercialidad, con el poder, con lo fácil y gratuito. Él mismo decía: “salvo excepciones somos un país de cantineros y de vendedores, que vendieron en las Áfricas, en Brasil, en Extremo Oriente… Ahora somos un país de pequeños comerciantes y estamos a vendernos los unos a los otros”.

José Afonso nunca aceptó venderse ni vender a nadie y además de ser el renovador de la música portuguesa fue la voz de los que no tenían voz, fue el más humilde de los humildes, fue el alma de las víctimas de la injusticia y la iniquidad. En un homenaje que le hicieron en Braga en 1984 dijo “Importa mantener la capacidad de indignación y seremos capaces de rechazar la hipocresía de quienes detentan el poder”.

daqui:

http://periodistas-es.com/grandola-vila-morena-los-30-anos-la-muerte-zeca-afonso-82186

Tradução livre

"Tímido e frágil, sua voz era única por seu timbre e sonoridade e um ajuste exato e preciso.

E, no entanto, ele nunca gostou das luzes do palco. Para Afonso, ter que cantar ante o público era como ter que tirar um dente. "Eu nunca canto por prazer", disse ele e é isso Zeca, mais do que o intérprete foi um criador e um professor.

E, como muitos artistas e criadores, nunca se importou com o aspecto comercial de sua arte. É por isso que, quando em meados dos anos 80, contraiu uma doença estranha chamada esclerose amiotrófica mais conhecida como doença de Lou Gehrig, em referência ao jogador de basebol americano dos anos 30 que também sofreu, e como a doença ia acabando com sua saúde e com a sua vida, Afonso também foi afundando na ruína económica até terminar numa pobreza extrema, perto de uma indigência indigna de seu talento e relevância.

Como alguém escreveu uma vez, Afonso morreu pobre porque nunca pactuou com o sentido comum, com comercialidade, com o poder, com o fácil e gratuito. Ele mesmo disse: "salvo exceções, somos um país de cantineiros e vendedores, que venderam em África, no Brasil, no Extremo Oriente ... Agora somos um país de pequenos comerciantes e estamos a vender-nos uns aos outros".

José Afonso nunca aceitou vender-se nem vender a ninguém e além de ser o renovador da música portuguesa era a voz daqueles que não tinham voz, era o mais humilde dos humildes, era a alma das vítimas da injustiça e da iniquidade. Num tributo feito em Braga em 1984, ele disse: "É importante manter a capacidade de indignação e seremos capazes de rejeitar a hipocrisia daqueles que detêm o poder".


Este desenho de Xulio Formoso de Zeca Afonso, tem um erro. Penso que não terão qualquer dificuldade em identificar esse erro.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O Sul de José Afonso

Depoimento de José Louro

"Fosse em Santo António do Alto, um miradouro isolado no topo de Faro, fosse no teu barco com o António Barahona e o Pité, fosse em nossa casa, quantas cantigas tuas se eclipsaram no mesmo éter, no mesmo vazio. Tu pegavas na tua viola (eras o único, entre nós, que dedilhava as cordas e, mesmo assim, lastimando e protestando que os teus dedos não iam além das duas posições básicas de, como dizias, acompanhar o teu “tem grelinhos, tem grelinhos no quintal” ou o “caga cão, caga gato, caga o feijão carrapato”) e, versejando um provisório lá-lá-rá-lá-lá, pedias insistentemente que decorássemos tal improviso para, no dia seguinte, arranjarmos qualquer modo de o gravar. Só que o nosso ouvido e a nossa memória novamente dissipavam o que poderia ter sido uma coisa bonita saída do teu talento. Merda! – dizias tu, nunca mais consigo arranjar um desses gravadores portáteis!

É que o dinheiro era pouco e, quando no dia 30 ias à livraria pagar os livros fiados durante o mês, lá ficava uma boa parte do teu ordenado de professor, e o que restava lá se convertia em muitos pequenos-almoços, almoços, jantares e ceias reduzidos a uns tantos copos de leite! E lá vinha agora uma nova revoada de protesto contra o leite, através da frase: “Ó pá, estou cheio de gases!” A vida era dura."

(...)

"Saio dessas sessões [atuais de homenagem ao Zeca] e penso no cheiro a lodo com que tu chegavas à praia de Faro, para dormir numa tenda em pleno areal, após teres atravessado o Parchal, em competição com aqueles de nós que seguiam enxutos pela estrada; penso nas tuas peúgas, uma de cada cor, ou até na ausência delas por já não haver mais na gaveta; penso na tua gravata com um nó perene que, à entrada na escola, enfiavas ao pescoço, quer houvesse um colarinho, quer um cós de t-shirt; penso na tua voz, com dias de limpidez total e com dias em que afirmavas que “qualquer galinha choca me faz concorrência”."

daqui:

http://www.postal.pt/2017/04/sul-jose-afonso/

José Afonso com amigos no Café Santa Maria, na praia de Faro (Verão de 1963)


Ilha da Fuzeta - o paraíso de Zeca Afonso

"A Fuzeta é muito conhecida pelo Zeca Afonso, que tinha aqui família. A minha infância era passada na ilha durante o Verão com amigos e recordo-me de que o Zeca Afonso gostava imenso deste local. Era uma pessoa muito simples e fazia ali muitas noitadas com a sua viola." (1)

"Antigamente, era uma alegria de dia e noite para toda a gente. Depois do pôr do Sol acendiam-se fogueiras e todos se divertiam. Lembro-me do Zeca Afonso, havia guitarradas e muita farra até às tantas da madrugada. A mulher dele veio aqui no início deste ano (2010) e depois de ter visto como está esta praia limitou-se a dizer: 'O que isto era e o que isto é…'" (2)

(1) José Brás, presidente da Junta de Freguesia em 2010
(2) Rogério Martins antigo pescador e agora barqueiro

daqui: https://www.dn.pt/portugal/sul/interior/quando-a-ilha-da-fuzeta-era-o-paraiso-de-zeca-afonso--1518630.html

foto: Zeca a passear na praia da Fuzeta.

Era um gajo porreiro

Vitorino

"Conheci-o nos meus vinte anos quando o Zeca Afonso era professor numa escola secundária em Faro. Já antes conhecia a sua música, de o ouvir clandestinamente. Os primeiros que ouvi dele foi o “Menino do Bairro Negro” e os “Vampiros”.

Nessa altura eu andava na tropa e vi um projeto que anunciava o doutor José Afonso, na Casa dos Pescadores de Olhão. Eu e outros recrutas fomos lá ouvi-lo. Ele movimentava as pessoas com um sentido que ia muito além da música. Ele simbolizava o reviralhismo, o movimento contra a ditadura. Sabíamos bem de que lado ele estava.

Professor de esquerda, da escola do existencialismo, não punha gravata.

Um dia antes de um concerto ele pediu-me para lhe afinar a viola. Ficámos amigos desde então e nunca mais deixámos de o ser. Passámos pela revolução. Acompanhei-o antes e depois do 25 de Abril. Era um homem expansivo, sanguíneo q.b. e profundamente solidário em todas as circunstâncias.

(...) Era um gajo porreiro, um amigo que faz falta, com uma atitude ética e social irrepreensíveis e que deixou uma obra única na música europeia."
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daqui:http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-02-23-Um-gajo-porreiro-um-amigo-que-faz-falta
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foto: Zeca, Vitorino e Carlos Alberto Moniz



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Bagão Félix

"Era impossível não gostar de Zeca Afonso. A não ser por preconceito redutor. Fez parte do meu encantamento, enquanto jovem, ainda antes do 25 de Abril, faz parte do meu castelo do que em memória, está dentro de mim.

Era um homem simples, generoso, ingénuo até. Sensível, genuíno, autêntico. Sem biombos ou disfarces. Competente. Com alma.

Um cantautor irrepetível. Abriu novos caminhos à boa e cristalina música portuguesa de raiz popular e eclética. Chegava às pessoas, não pela via da agora tão em moda sofisticação forçada e liofilizada, mas pela singeleza da naturalidade, pela beleza da musicalidade e pela mensagem da poesia.

Zeca Afonso permanece em nós na decantação da memória e no registo da gravação de que continuamos a usufruir no tempo que há para além do seu tempo. Através dessa presença memorial e da sua voz renascida em cada momento em que nos continua a chegar docemente aos ouvidos, pode sentir-se a radicalidade da boa saudade, feita da confluência entre a presença ausente e a ausência presente. Onde cabe a alegria, a quietude, a estética. E a esperança."

daqui:

http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-02-23-Uma-voz-renascida-em-cada-momento

domingo, 8 de outubro de 2017

Zeca na Aula Magna

José Afonso num friso, com personalidades que tiveram, segundo o autor J. Conde Corbal, interesse na Galiza do séc. XX, pintado na Aula Magna da Faculdade de Económicas da Universidade de Santiago de Compostela.

imagem daqui:

http://www.usc.es/econo/Conde/Conde51.htm

sábado, 7 de outubro de 2017

Regresso de Moçambique - Agosto de 1967

"Quando o barco atracou no cais de Alcântara (setembro de 1967), a única pessoa que o esperava era um jornalista da rádio, Adelino Gomes, a quem declara estar na disposição de ser exclusivamente professor, porque era seu propósito firme abandonar as cantigas. Este informa-o que havia grandes expectativas à volta dele, ao que Zeca respondeu:

“Vou para o Algarve, vou deixar de cantar, porque isto de cantar não quer dizer nada, não interessa a ninguém”; explicando-lhe ainda que não lhe daria a entrevista que lhe solicitava porque já não se considerava um cantor. Perante a insistência: “Mas você não pode deixar de cantar, você é extremamente importante, para os estudantes, para a malta, aquilo que você canta diz-nos tanto, é através da sua voz que nós chegamos lá. Nós na rádio quando queremos dizer qualquer coisa dizemo-lo através das suas canções”, lá lhe deu a entrevista.

José Afonso referir-se-á mais tarde a esta importância “exagerada” que encontrou no regresso de Moçambique “fui rodeado por um mito quase sebastianístico (…) constatei com alguma surpresa, que à minha volta se formava um clima de expectativa, como se eu viesse trazer alguma coisa de novo (…) Parecia que as pessoas queriam manifestar-se e não sabiam como. E agora estava ali um tipo que falava em vez deles”

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daqui:http://www.jornalmapa.pt/2017/02/11/panegirico-jose-afonso/

Adelino Gomes, Público, 23 de Fevereiro de 1992

Aqui o Adelino refere a chegada de Zeca em setembro. Zeca embarca em agosto e chega em setembro a Portugal.


Pintura: Acrílico sobre tela, 50x70cm de Josefa Moura​




quinta-feira, 5 de outubro de 2017

POSTAL VERDE DO ZECA

De Rui Pato

POSTAL VERDE DO ZECA PARA O MEU PAI (inédito)

5 detalhes curiosos (para os estudiosos)

- o convite do padre de Pataias
- a “próxima” gravação (a tal em que eu já não fui)
- a inclusão da Hermínia no programa
- a ida “por um ano para a américa”
- e a pergunta se eu saía ou não da tropa


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Zeca Afonso e Rui Pato na crise académica de 1969

A crise académica de 1969 começou quando não foi permitido aos estudantes o uso da palavra durante a inauguração do edifício das matemáticas. Alberto Martins, na altura presidente da Direção Geral da Associação Académica, subindo para uma cadeira com a capa aos ombros diz:

“Em nome dos estudantes de Coimbra, peço a palavra”.

O regime não o permitiu e, a 17 de abril, Alberto Martins foi detido e passou a noite na cadeia. Outros oito estudantes da Universidade, a 22 de abril, foram suspensos e proibidos de assistir às aulas. A Assembleia Magna decreta o luto académico e muitos artistas aderem a esta luta estudantil.

Zeca Afonso não poderia ficar indiferente e no Ginásio e num outro local, Zeca ali está com o seu amigo de sempre, Rui Pato, a apoiar a luta dos estudantes.

São desses momentos as fotos aqui colocadas (numa das fotos, Zeca está ajoelhado à esquerda de Rui Pato).

1969 foi o ano que "acabou" a ligação entre Zeca e Rui Pato. Impedido pela PIDE de se deslocar a Londres onde Zeca iria gravar o LP "TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM" devido à luta estudantil, Rui Pato foi substituído por Carlos Correia (Bóris).

Voltariam a cantar e a tocar juntos 14 anos depois, janeiro de 1983, no Coliseu, onde Rui Pato acompanharia Zeca em três dos seus mais antigos temas.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Câmara Municipal de Coimbra homenageia Zeca Afonso

"José Afonso escreveu, musicou, cantou, deixou a herdar. Foi mensageiro do seu próprio pensamento, mas mais. Num tempo português em que o chamado "folclore" vestia as cores garridas que a política de Salazar, executada por Ferro, lhe tinha destinado, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e muitos poucos mais procuravam, junto de quem sabia, os vestígios de uma música do povo que a ele se assemelhava – musicalmente rica, poética, funcional. E tão fundamental que o próprio Zeca viria a valer-se dos ambientes dessa música para a construção da sua obra. “Grândola Vila Morena” é um exemplo de tal construção, mas há na obra de José Afonso sinais quase intocados da música do povo português, ali convertido em guardião e divulgador ..."

Manuel Rocha*

*Manuel Rocha é professor de Música no Conservatório de Música de Coimbra. Músico (violino) na Brigada Victor Jara, acompanhou diversas vezes José Afonso, nomeadamente, numa digressão a Moçambique.

daqui:

https://www.cm-coimbra.pt/index.php/areas-de-intervencao/cultura/atualidade/item/5234-camara-municipal-de-coimbra-homenageia-zeca-afonso-de-10-a-12-de-agosto

Imagem: Invólucro dos discos na Emissora Nacional, com a anotação lateral das datas de emissão das faixas de um dos 1º discos de Zeca, em 78 rpm de 1953 (lado A - Contos Velhinhos. Lado B - Incerteza) que fez parte da exposição levada a cabo pela Câmara Municipal de Coimbra em agosto deste ano.

domingo, 24 de setembro de 2017

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Manuscritos de Zeca Afonso - A Carta

Uma carta toda ela escrita em poesia.

Como se sabe, em 1967 estava Zeca Afonso a lecionar na Beira. Reza em tudo o que li que Zeca não acabou o contrato e regressou a Portugal antes do fim do ano letivo. Por esta carta tal não aconteceu. O ano letivo em Moçambique era de 18-9-1966 a 29-7-1967. Zeca regressa em Agosto como aqui o refere. Mas isso por ora não importa. Importa sim, a riqueza textual e poética desta missiva escrita à Lurdes e ao Zé, que não sei quem serão.

Sabe-se que Zeca não foi para Faro, mas sim para o Liceu Nacional de Setúbal. Seria depois expulso do ensino.

Tive o cuidado de separar o texto e é extraordinário. Um texto de poesia que nos dá a grandeza mental e o génio de Zeca Afonso.

Tete, 14/6/67
Colégio S. José

Carta para Lurdes e Zé

Vocês não escrevem
porque estão zangados?
Amuados?
Desiludidos?
E somos nós os visados?
Os apontados?
Os aludidos?
Se não,
porque estamos dados
como desaparecidos?

Sabeis que vamos daqui para fora
a cem à hora?
Num barco janota
que nos transporta
para a bancarrota?
Parte em Agosto,
em Agosto!
Pelo sol posto,
até aposto!

Chama-se Angola,
levo a viola.
numa sacola:
Toco as “janeiras”
às passageiras
solteiras.
Digo alarvadas
às burguesinhas casadas.
Ou durmo a sesta
como uma besta.

Eu estou em Tete
cumprindo um frete
docente.
Deixei a Zélia,
deixei a Lena,
deixei a Jana,
o Pingente.
Na Beira chata
que é uma caca
e uma bravata
imprudente.

Sou todo ouvidos
para os amigos
antigos.
Contem histórias
das mais recentes
memórias.
Como se dão
dentro desse paredão?

Se estais mais gordos,
se estais mais magros,
se estais mais ricos
[Coitados].

Eu estou cansado,
estou esvaído
tenho o coco
carcomido.

Mas vou ficar
como novo
dentro do ovo,
junto do povo.
Mas vou ficar como fino
a cantar
“o meu menino”.

Preciso dum tacho raro
na Comercial de Faro.
A rima é para dar com “aro”,
"ignaro",
é ainda mais caro.

Mas estou a ver o manguito
que me faz o Monteirito.

Se vou falar ao Cardeira,
dou com as ventas na torneira.
Diz o Monteiro com mágoa
que não faz filhoses de água.

Já falei ao meu irmão,
diz que está cheio o vagão.
Diz o Cardeira: Concorra,
e a rima agora concorda.
Vou escrever à Direcção
Geral da Corporação.

Vou meter o requerimento
para ver se ingresso a contento.
Vou meter a papelada
para ver se engrosso a manada.

Viva a Lurdes. Viva o Zé
Viva eu, Viva, rapé.

Amigo Afonso
(o José)

P.S.
Até dois de Julho aqui
Depois volto donde vim.
Virei depois às horais
Duas (?) semanas*, não mais.

Notas:

*parece, pela espessura de tinta, que esta parte foi acrescentada posteriormente.

O Monteiro aqui referido, era um antigo colega do Zeca na Comercial de Faro, e foi quem deu ao Zeca o tal "lapisito" para o Zeca acabar a tese «Implicações substancialistas na filosofia sartriana».

Nas biografias existentes refere que Zeca Afonso quando saiu de Lourenço Marques para a Beira, lecionou no Liceu Pero de Anaia, de 14-9-65 a 30-7-1966, tendo revogado para o ano seguinte onde leciona de 18-9-1966 a 29-7-1967. Não há qualquer referência de Zeca ter dado aulas em Tete. A carta de Zeca refere Tete e o Colégio S. José e diz que deixou a Zélia, a Lena e a Jana (Helena e Joana, as filhas), sinal que enquanto elas estavam na Beira, Zeca lecionava em Tete. De Tete à Beira de carro são cerca de 8h de caminho (583 km).

Em "P.S." Zeca refere que ficará em Tete até 2 de Julho e que após isso, regressará à Beira e voltará a Tete para as "horais" (penso que aqui Zeca queria dizer "orais", que fazem parte dos exames finais e não "horais" relativo a horas).

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Hélder Costa

“Conheci o Zeca em Coimbra, numa altura em que ele já não vivia lá mas ia lá muitas vezes. A primeira vez que o ouço era um caloiro, tinha acabado de chegar. Estava na República do Prá-Kis-Tão, eram três ou quatro da manhã quando comecei a ouvir um gajo a cantar. Os mais velhos disseram logo que era o Zeca. O Zeca subia, sozinho, a cantar com uma voz extraordinária. O primeiro impacto foi, portanto, de um romântico, algo relacionado com o romantismo do século XIX”

“Ele tinha amigos em várias repúblicas, na Prá-Kis-Tão, nos Incas, na Rás-Te-Parta, e ia dormindo por lá. Foi-se criando uma amizade entre a malta. Dava-nos conselhos engraçadíssimos, como dizer-nos que devíamos comer bolos com creme porque alimentavam mais. O Zeca passou a vida a dar-me conselhos”

“Lembro-me perfeitamente que um dia estava na Rás-Te-Parta e o Zeca estava a dedilhar umas coisinhas, que haviam de dar origem à “Menino d'oiro”, e da alarvidade daqueles que diziam que aquilo era uma “mariquice”, todos indignados porque já não era o fado de Coimbra”

“Ele dormia várias vezes lá em casa. Um dia, estava eu a dormir e ouço: “Ó Hélder, Hélder!”. Levanto-me e estava o Zeca no fundo do corredor, de perna cruzada. Diz-me: “Este cão vai ladrar toda a noite?”

“A última vez em que estivemos juntos foi num dia absolutamente tétrico. Foi o dia em que o Cavaco foi a eleições e ganhou com maioria absoluta. O Zeca ligou-me para ir ver as eleições em casa dele em Azeitão. Disse-me que a Zélia não estava e que estaríamos sozinhos. Foi um dia inteiro em pânico. (…) Lembro-me que, quando a transmissão acaba, o Zeca diz-me:

'Ó Helder, e agora?”

daqui:

http://www.esquerda.net/dossier/o-zeca-passou-vida-dar-me-conselhos/47159

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

José Carlos Vasconcelos

"Após o 25 de Abril julguei que a única coisa que tinha de fazer era contribuir para o processo geral. Agora, dou por mim a contabilizar as minhas actuações. E divido a minha actividade em duas partes: vou lá fora arranjar dinheiro, para o chamado pé-de-meia familiar e cá dentro pago a minha dívida política e cultural para fins que considero correctos e a pessoas ou organizações para que vale a pena fazê-lo. E como poucas vezes canto por gosto - prefiro estudar, agradar-me-ia tirar outro curso, às vezes até me passa pela cabeça que gostaria de mudar de personalidade, como as personagens de Pirandello, preciso de muitos, muitos estímulos para cantar, tocar e fazer coisas novas.

Por outro lado também existe uma certa decepção ou, se não decepção, desvalorização da actividade cantante. (...) , o que faço é ler, praticar actividades físicas e ensinar os meus filhos, mas gostaria de ensinar os filhos dos outros"

In Se7e, 22 de abril de 1980, entrevista a José Carlos de Vasconcelos.

foto: Zeca com José Carlos Vasconcelos

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Luís Cília

Quando é que se deu o primeiro contacto com a música do Zeca Afonso?

"Já foi em Paris. O Adriano conheci-o pessoalmente aí, mas não tinha nenhum disco dele. E foi por essa altura que ouvi o primeiro disco do Zeca Afonso, acompanhado na viola por uma pessoa também muito importante, com um excelente trabalho, o Rui Pato​. Foi aí que conheci os primeiros discos do Zeca Afonso, que eram uma maravilha, de um talento enorme."

E quando é que conheceu pessoalmente o Zeca Afonso?

Foi em Paris, porque eu não podia vir a Portugal. Conheci-o quando o Zeca foi lá cantar pela primeira vez. Já não me recordo da data precisa, mas ainda foi nos anos 60, numa espécie de foyer de estudantes no Bairro Saint-Michel, que era dirigido pelo Ayala, um exilado que vivia lá há muitos anos. A partir daí ficámos amigos. Ele e a Zélia chegaram a ficar em nossa casa numa altura em que não estávamos em Paris. Comecei, portanto, a ter uma relação mais intensa com o Zeca, também com o Paco Ibáñez que conheceu o Zeca nessa época através de mim."

daqui:

http://www.esquerda.net/dossier/um-grande-amigo-e-um-homem-extraordinario/47140

foto: Luís Cília e Zeca, na Festa do Avante 1980

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Benedicto

"E aqui quero fazer uma referência especial porque quando falamos de cantores militantes não podemos esquecer o Benedicto, natural de Santiago de Compostela, galego, que fez comigo mais de cinquenta sessões, algumas delas com José Jorge Letria e outros.

Como é óbvio, a maior parte de tais sessões foi clandestina e na fase final do fascismo quando o movimento sindical começou a estruturar, gerando mais tarde a Intersindical, fomos convidados frequentemente para actuar nos caixeiros, depois nos bancários (também convidaram o Fanhais)."

fonte: José Afonso - Andarilho nas Astúrias de Mário Correia​

fotos: Zeca em Santiago de Compostela com Fanhais, JJLetria e Benedicto



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O cancro

"Íamos, os dois, em pé, no eléctrico para a Praça da República e ele, no seu jeito irreverente, disse, em voz alta, uma graçola qualquer sobre Salazar - talvez: "Diz-se que o António tem um cancro; coitadinho do cancro!". Houve uns quantos sorrisos discretos...

Quando descemos do eléctrico, o Zeca foi abordado por um sujeito desconhecido que lhe mostrou "qualquer coisa", que trazia escondida sob o virado do casaco. "Que raio de merda é essa?", foi a reacção descontraída do Zeca. O homem agarrou-o por um braço, e mostrou-lha melhor - era um crachá da PIDE!

O Zeca ficou entupido e o homem disse-lhe: "Tenha juizinho e não volte a dizer aquelas baboseiras!"


fonte: "Zeca Afonso antes do mito" de António dos Santos e Silva

foto: Zeca com o irmão João, António dos Santos e Silva deitado no capô e o primo Tó, filho da tia Avrilete, atrás à dtª.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Canção do Mar

"Canção do Mar" do EP "Cantares de José Afonso" - 1964
(disco proibido pela censura)

viola: Rui Pato​


Ó mar
Ó mar
Ó mar profundo
Ó mar
Negro altar
Do fim do mundo

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
O teu olhar

Ó mar
Ó mar
Ó mar profano
Ó mar
Verde mar
Em que me irmano

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar



foto: Zeca com a filha Joana

sábado, 5 de agosto de 2017

Zeca pelo olhar do pai.

numa carta enviada de Díli para o irmão Filomeno.

«Não é uma criança má nem lorpa. Em Lourenço Marques, o professor, apesar de não o compreender, afirmava que ele é inteligente. Quanto a bondade, dizia que ele era o melhor aluno que tinha na escola! Então que é ele? Não sei. Sei apenas que é uma criança... terrivelmente criança»

Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O que me ficou de Coimbra...

«O que me ficou de Coimbra... o lirismo também. Nós vivíamos em Coimbra acima das suas possibilidades reais. Imaginava Coimbra acima das suas reais dimensões. Era uma Coimbra poetizada porque quando eu queria concretizar na cidade essa imagem, era uma chateza do caraças.

Invariavelmente ia dar à Rua Visconde da Luz, à Ferreira Borges, e encontrava os mesmos tipos nos mesmos lugares, ali no Arcádia, e pensava muitas vezes: afinal esta cidade é muito mais fechada, é muito mais prosaica do que possa parecer.»

Zeca Afonso


"José Afonso, o Rosto da Utopia", de José A. Salvador

Foto: Zeca com António Portugal

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

88 anos do Zeca

José Afonso nasceu a 2 de agosto de 1929. Se fosse vivo hoje faria 88 anos.

Parabéns Zeca

"Zeca resulta da enxertia de uma cepa beirã (pai) em vide minhota (mãe), ambas transplantadas para a foz do Vouga. Da combinação onomástica dos progenitores saiu-lhe o nome: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. As contingências, sempre arbitrárias, reduziram-no mais tarde para José Afonso, Zeca para os mais íntimos (...)

Não existe a casa onde Zeca nasceu, na parte superior daquilo que foi a escola infantil, por essa altura a cargo da mãe. Uma instituição pré-primária que remontava ao liberalismo"


"Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Zeca pelo olhar do irmão João

"Dos três irmãos (João, Zeca e Mariazinha), foi ele quem mais se aproximou, na fisionomia e talvez na psicologia, dos Cerqueiras. (...) A tez clara, os olhos rasgados (para horizontes invisíveis) e também uma sensitiva vibração, a capacidade imagética, a descoberta do lado oculto das coisas vinham, a meu ver, da costela Cerqueira ou talvez da parte Dantas Cerqueira.

Mas a moldura era dos Afonsos, neste sentido de que puxava ao pai, por sua vez mais parecido com o pai dele (o avô Santos) do que com a mãe (a avó Lucrécia) onde o sobrenome Afonso vai buscar afinal a sua origem."


"Um Olhar Fraterno" de João Afonso dos Santos

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Arnaldo Trindade

descreve-o como...

«um pouco snob intelectualmente. Não era uma pessoa simples, embora soubesse ser simples» Era um leitor compulsivo «Era um tipo muito, muito lido, que tinha os García Marquez antes de serem traduzidos (...) tinha consciência do que estava a acontecer no mundo, do Maio de 68 francês ao Vietname, passando pelas lutas sociais nos EUA e pelas revoluções comunistas por esse mundo fora. Estava a par de tudo»

Pelo que os discos foram-se tornando «mais politizados» mas também «mais literários». «Naquela altura, devido ao regime, ele tinha de encontrar metáforas para o que queria dizer. Muita da beleza daquelas canções reside nessa subjetividade»

daqui:

http://blitz.sapo.pt/principal/update/2017-02-23-Jose-Afonso-morreu-ha-30-anos.-E-ainda-ha-um-mito-para-derrubar

sábado, 29 de julho de 2017

Zeca Afonso e a Revolução


"Tudo isso era, em parte, o fascismo, o inimigo comum que nós tínhamos. Eu sou do tempo em que os polícias andavam pelos jardins a ver quais eram os parzinhos enlaçados para lhes dar pedirem a identificação e os levarem para a prisão.

É importante que os putos novos saibam que o fascismo não era só um sistema político, mas que era também um modo de vida que nos envenenava a todos e que conspurcava aquilo que existia de mais caro, mais imediato e mais sincero em todos nós...

E esse tipo de permissividade que, apesar de tudo, se vive hoje e a naturalidade com que actualmente se encaram coisas que eram consideradas grandes pecados, são resultantes do 25 de Abril. O simples facto de um tipo se estender em cima de uma relva não era permitido... "

Zeca Afonso

daqui:

http://aja.pt/ficheiros/zecaescola/Didacticadeunidade.pdf

sexta-feira, 28 de julho de 2017

“O Zeca Afonso é a referência... "

“O Zeca Afonso é a referência principal da minha vida”

“O José Afonso é a referência principal da minha vida, com muita alegria e orgulho. Penso que toda a gente da minha geração, que esteve desperta para os valores da solidariedade, teve, e tem ainda, o Zeca Afonso como referência. Ele foi como que um mestre para a minha geração! É certo que alguns andaram afastados do Zeca – andaram distraídos! -, e, hoje, isso também acontece.

Devo muito ao Zeca Afonso. E a minha geração, que hoje vive estes valores humanos; estes valores de solidariedade; que combate o neoliberalismo; estas políticas assassinas e desgraçadas… ainda tem por referência, e vive, o espírito do Zeca Afonso. Eu canto o Zeca Afonso porque acho que ele enriqueceu a minha geração.”

“Conheci-o pessoalmente e cheguei a tocar com ele. O Zeca Afonso era um homem muito acessível. Cantei só uma vez com ele, em Friume, Vila Real. Ele como que mal sabia tocar e cantar, fazia-me sentir igual a ele! Isso, hoje, até me faz rir. O Zeca Afonso era um homem extraordinário…

“Homem culto, extraordinário. E isso faz-nos falta hoje!”

daqui:

http://etcetaljornal.pt/j/2013/10/jose-silva-a-ideia-que-quero-fazer-passar-do-zeca-afonso-e-a-de-um-homem-culto-militante-solidario-e-nao-a-de-um-distraido-como-distraidos-andam-os-portugueses/

foto: Zeca em Coimbra, tendo o Mondego e a cidade como "pano" de fundo.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

"e o mar é tão grande"

"Distraído, como sempre, José Afonso foi embater num pescador, que estava no areal remendar as redes", contou Alice Brito (aluna de Zeca), adiantando que nunca mais se esqueceu da resposta dada pelo pescador: "e o mar é tão grande"

Zeca teve sempre grande predileção pelo mar. Pelo mar "navegou" nas mãos de um velho missionário, o "homem das barbas brancas", quando tinha 3 anos. Das viagens pelo Atlântico e pelo Índico, das férias que passava com o irmão e o tio Filomeno, na Figueira da Foz, dos poemas que cantou, da poesia que pelos seus dedos escorria.

"Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar...

Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo"

O mar pode ser grande, mas imensidão do mar é tão e mais pequena, que a sua voz que atravessou todos os mares e navegou por todos os sete continentes.

"Zeca, com aquela elasticidade física de que a natureza o dotara, imitava os entendidos, dando grandes saltos para as ondas e não menos e grandes e ritmadas braçadas..." (1)

(1) - Um Olhar Fraterno de João Afonso dos Santos

foto: Zeca e o irmão João, com o tio Filomeno.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

«Joguei um ou dois anos futebol...»

«Joguei um ou dois anos futebol nos juniores da Académica»

Aproveitava um pouco a Mocidade Portuguesa para fazer umas jogatanas de «fotebol qu'induca e fado qu'instrói». Ia ali para o campo de Santa Cruz jogar umas boladas. (...)

Formávamos equipas várias interturmas e, no meio de grandes sarrafadas, fazíamos aí futeboladas, que se prolongavam...

Um belo dia joguei na Académica, apesar de não ter grandes condições físicas, o próprio Esteves que foi meu professor... dizia-me «Oh Cerqueira, não jogue».

Zeca acabou por jogar a extremo-direito mas jogava pouco pois, como refere, só aguentava vinte minutos.

Anos mais tarde iria dedicar-se ao judo: - Fui mesmo um viciado no judo e até parti uma perna em dois sítios.

foto: Zeca a jogar à bola com José Jorge Letria.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Manuel Freire

"A maior herança do Zeca tem a ver com o aspeto musical.

Porque o exemplo dele como cidadão chega a pouca gente, já a sua música chega a muita gente. Foi um criador genial, um homem que compôs coisas fantásticas, fez coisas lindíssimas. Algumas a pender para o surrealismo, umas com muita graça. E é essa a herança, digamos assim, principal hoje em dia, ligada também à sua postura enquanto cidadão, procurando sempre uma situação mais justa para si e para aqueles que o rodeavam. Mas é na parte musical que a coisa se estende a mais pessoas.

O Zeca era um homem normal, cheio de dúvidas e de falhas, mas era uma pessoa da qual eu guardo uma recordação, como amigo, muito terna e muito grata. Mas nada o colocava para ser logo identificado como um ser absolutamente excecional. Era um fulano normal que era um grande intérprete e um grande criador."

daqui:

http://www.esquerda.net/dossier/o-que-aprendi-de-mais-importante-com-o-zeca-tem-ver-com-uma-postura-em-relacao-ao-mundo

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O "Tosse Tosse"

"O barquito era o catalisador dessa subversão do quotidiano. À noite o António Barahona trazia os remos e as redes para o quarto. O nosso quarto ficava no rés-do-chão, de tal modo que o Zeca entrava pela janela que dava para a rua. Entre os pescadores, o barco era alcunhado por "Tosse, Tosse", uma referência erótica às nossas viagens e noitadas pela ria de Faro. Para além disso, eu era a única mulher que ia no barco ao lado do António Barahona, do António Bronze, do Zeca e do Pité."

«Era (Pité) o grande amigo e companheiro do Zeca Afonso. Hostilizado pela sua cidade, fechado, foi aluno do Zeca, com quem vagueava pelas ruas de Faro até altas horas da noite. O Zé Afonso era um tipo completamente despistado, um tipo distraído ao máximo, a quem estava sempre a acontecer coisas inimagináveis. Às vezes, ele e o Pité afastavam-se, iam provavelmente fazer nudismo. Um dia, o Zeca vinha com as cuecas molhadas que trazia na mão. Entrou desse modo na sala de aula enquanto poisou as cuecas em cima de uma secretária». (1)

"E juntos vivemos situações interessantes a partir do tal ciclo do barco do "Tosse, Tosse", o "barco do diabo", que um amigo nosso pintou como se fosse um bergantim. (...)

Nesse "barco do diabo" fazíamos viagens fantásticas ou fantasmas. Umas vezes, eu e o Pité através da ria, outras vezes o Pité e o Barahona, outras vezes eu, o Pité, o Barahona e também a Luiza Neto Jorge." (2)

(1) - Luiza Neto Jorge
(2) - Zeca Afonso

fonte: "Livra-te do Medo" de José A. Salvador

sexta-feira, 21 de julho de 2017

João Carlos Callixto - investigador


"Faz todo o sentido falar em herdeiros da música do Zeca Afonso. Acho que é mesmo impossível não falar, ao pensar na música portuguesa das últimas duas décadas e meia. Portanto, praticamente desde a morte dele"

"é impossível pensar em Deolinda, Diabo na Cruz e Criatura sem pensar na obra do Zeca Afonso". "São projetos que têm este espírito que o Zeca Afonso tinha de mistura de várias referências, de preocupação com as letras. De, a nível musical, não se fechar dentro de uma gavetinha"

"O Zeca acabou por se transformar num nome que cruza públicos, cruza repertórios e que não se fecha de maneira nenhuma dentro do âmbito das ditas canções de intervenção ou dos repertórios dos cantautores"

"Por isso é que se diz tantas vezes que estas novas gerações do hip-hop se reclamam um bocadinho do legado da canção de intervenção. Não quer dizer que para o hip-hop seja a única coisa que importa do trabalho do Zeca"

"essa também é a riqueza do Zeca Afonso, dar-se para tantos géneros musicais". "É um dos maiores génios da música portuguesa do século XX, isso é indiscutível"

daqui:

http://www.cmjornal.pt/cultura/detalhe/zeca-afonso-um-artista-que-deixou-sementes-para-as-geracoes-seguintes

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Homenagem - 27 de janeiro de 1984 - Braga

Missiva de Zeca Afonso lida por Francisco Fanhais num espetáculo em sua homenagem, que teve lugar no dia 27 de janeiro de 1984 em Braga.

"...Esta festa não pode ser só uma homenagem a um homem, seria bem pouco! Tem que ser, também, um encontro de pessoas que recusam a anestesia que o sistema nos quer impingir e sobretudo um apelo à juventude para que mantenha sempre um espírito crítico e uma atitude de esclarecida resistência face aos valores que a sociedade capitalista nos pretende impor. E se é certo que a situação actual não é a mesma de antes do 25 de Abril, importa manter a capacidade de indignação e sermos capazes de rejeitar a hipocrisia dos detentores do poder.

Encontrando-me actualmente numa fase de pouca actividade física reafirmo a disposição de me deslocar, mais tarde, a Braga, onde espero reencontrar os amigos e dialogar e conviver com os jovens e com todos aqueles por quem a justiça e a fraternidade são a razão da sua luta.

Obrigado companheiros, um abraço do Zeca".


quarta-feira, 19 de julho de 2017

José Jorge Letria

“Existia entre mim e o Zeca Afonso uma verdadeira fraternidade que me marcou para a vida.

Um dia íamos no carro conduzido pela Zélia, mulher do Zeca, a caminho de Santiago de Compostela. Já perto da fronteira norte de Portugal, abrimos a mala do carro e descobrimos que transportávamos alguns milhares de panfletos denunciando as condições em que se verificara o assassinato de Amílcar Cabral. Se nos apanhassem com eles, seríamos logo detidos.

O Zeca era mesmo assim: distraído, combativo, corajoso e sempre imprevisível. Mas era ele! E era imensa nossa amizade e a nossa admiração por ele."

daqui:

http://alumni.letras.ulisboa.pt/

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O Zeca era um gajo muito bom

"Era um gajo muito bom. Era farol mas também era regaço, era riso mas também era profundidade intelectual. Era o Zeca, pá! (...) era um indivíduo que, para além de extremamente inteligente, era extremamente humilde e de uma grande coragem física e intelectual. E, às vezes, a coragem intelectual é bem mais difícil de sustentar do que a física.

O Zeca era um gajo de uma dádiva total, solidário como ninguém, humilde, capaz de encontrar nas pessoas mais humildes coragem e capacidade de luta que o galvanizavam também a ele. (...) O Zeca era um homem comprometidíssimo com a luta pela liberdade, ia a todas.

Da maneira como se dava na totalidade, participava em tudo e não cuidava de si. Cantava em condições precárias, não tinha tempo para comer, não comia decentemente... "

Carlos Guerreiro in "Esquerda.net"

foto:

Zeca Afonso, em 1980, no espetáculo do 4º aniversário da Cooperativa Nascente, Espinho, com Julio Pereira​, Henrique Tabot​ e Guilherme Inês​.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Zeca - O homem comprometido

«Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define esse compromisso, mas o conjunto de circunstâncias que o envolvem com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta»

Semanário Se7e - 27 de novembro de 1985 - Viriato Teles

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Prémio Casa da Imprensa

Zeca recebeu este prémio em três anos seguidos 1969-1970-1971.

1969 - "Contos Velhos Rumos Novo"

1970 - "Traz Outro Amigo Também"

1971 - "Cantigas do Maio" (considerado o melhor disco de José Afonso)

Nesta foto, Zeca Afonso recebe das mãos da jornalista Manuela de Azevedo (faleceu este ano com 105 anos), o prémio da Casa da Imprensa de 1971, num espectáculo realizado no Teatro de São Luís.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A canção é uma arma

A canção, tornou-se numa arma como diz o cantor e, a partir dos anos 60, partilhou fraternalmente o grito alegre e intenso de revolta contra o colonialismo e contra as ditaduras que mancharam a História de Portugal e Brasil.

Coimbra, cidade da Universidade e dos estudantes, onde reinava o fado e a balada, revelou-se um dos berços da canção política.

Já nos anos 30 e 40 o neo-realismo tinha reunido na cidade um número notável de poetas de grande fôlego, alguns dos quais, como Luís Bettencourt, levaram a poesia às vozes do fados e das baladas, unindo as duas grandes expressões culturais coimbrãs que são a canção e a poesia.

A partir do fado e da balada, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros, vão juntar às toadas tradicionais letras e poemas claramente politizados, especialmente bem recebidos pelos estudantes que começavam a sentir na pele a pressão de uma guerra injusta para a qual a ditadura os empurrava sem piedade.

A canção junta pessoas e vozes. A canção fala e faz falar. Grita. Entra nas Universidades, em muitas igrejas e espaços paroquiais, em clubes operários. A canção é perseguida e proibida. Autores como Zeca Afonso ou Chico Buarque de Holanda são presos inúmeras vezes.

Presos devido às palavras a arder que nos traziam. Presos pela dignidade com que resistiam. Presos pela palavra que insistiam em espalhar.

Adriano cantava os poetas. Em primeiro lugar Manuel Alegre, e outros depois como Manuel da Fonseca, António Gedeão, Raúl de Carvalho e muitos mais. O Zeca cantou menos os poetas mas também o fez desde Luís de Camões, Jorge de Sena, Luís Pignatelli, António Quadros, Ary dos Santos, Fernando Pessoa ou António Aleixo.

Além dos poetas, Zeca escreveu muitas das letras que cantava. Mas também recolheu toadas, melodias e letras da tradição popular das Beiras, do Alentejo, dos Açores, pondo muitas vezes em destaque o seu profundo apelo à liberdade.

Zeca Afonso tomou ainda para si a influência da música africana criando canções que de alguma forma uniram as lutas de um e outro lado do Oceano, tornando claro que a luta dos africanos e dos portugueses era a mesma.

E pode dizer-se sem perigo de demagogia que essas canções também contribuem para o traçado do espaço da lusofonia.

Daqui:

http://jornalcultura.sapo.ao/dialogo-intercultural/na-ponta-do-pe-na-boca-do-povo

terça-feira, 13 de junho de 2017

Alípio de Freitas

(Bragança, 17 de fevereiro de 1929 – Lisboa, 13 de junho de 2017)

Sacerdote católico que, no Brasil, se envolveu nas lutas dos camponeses contra o poder dos latifundiários da cana do açúcar, acabando por ser preso pela DOPS brasileira (Departamento de Ordem Política e Social) o mesmo que a PIDE em Portugal.

Foi torturado e Zeca homenageou-o com o tema Baía da Guanabara, mais tarde Alípio de Freitas.


Tive o prazer de o conhecer pessoalmente e agradecer-lhe o que fez contra a ditadura, tenha ela a cor que tiver, ou em que país for.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Durval Moreirinhas

(Celorico de Basto,11 de abril de 1937 - Lisboa, 12 de junho de 2017)

Na vida e obra de Zeca Afonso dos seus tempos de Coimbra, para além do inevitável Rui Pato, três outros nomes lhe estão associados com frequência: José Niza, Jorge Godinho e Durval Moreirinhas.

Foram José Niza e Durval Moreirinhas os primeiros a acompanhar Zeca somente à viola, nos temas "Minha Mãe" e "Balada Aleixo" inseridos no LP Coimbra Orfeon of Portugal em 1962.

Para além das visitas a vários pontos da Europa, África e América, foi com estes três elementos, o primeiro vídeo (que se conheça) de Zeca, gravado em Frankfurt em 1963 para a TV pública alemã HR (há outro mas nesse Zeca toca a solo).


O último evento onde Durval Moreirinhas participa acompanhando Zeca, foi na Festa da Amizade nas Caldas da Rainha a 5 de fevereiro de 1983.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Otelo fala de Zeca

Otelo Saraiva de Carvalho só conheceu e deu um “abraço emocionado” a José Afonso depois do 25 de Abril de 1974, o golpe que quis que tivesse como senha uma “canção do Zeca”.

“Podia ser o ‘Venham mais cinco’ ou ‘Traz outro amigo também’. Acabou por ser a ‘Grândola’, porque as outras estavam no índex da censura”, recordou Otelo em entrevista à agência Lusa, em que fala sobre “o turbilhão de amizade” que o uniu ao cantor que o apoiou nas presidenciais de 1976 (e nas de 1980), quando teve 16,46%, mais do que Octávio Pato, apoiado pelo PCP. Foram as canções de Zeca e o seu génio a cantar “música de intervenção de caráter político” que o “estimularam enormemente” na sua consciencialização política (...)

Entrámos num turbilhão de amizade, de companheirismo muito grande”, lembrou, apelidando “o Zeca o irmão que gostaria de ter tido” e não teve.

“Foi uma grande campanha e sempre com o Zeca ao meu lado. Ele foi um companheiro notável”, sintetizou, afirmando que também o ouvia como conselheiro político. O próprio músico recorda, na entrevista para livro biográfico de José António Salvador “O Rosto da Utopia” (Edições Afrontamento): “As propostas de Otelo foram uma alternativa revolucionária praticável para este país. Podia ter sido um caminho para evitar que este país seja um porta-aviões do imperialismo americano, do subimperislismo europeu (sobretudo o alemão).”

O militar de Abril emociona-se ao recordar a última vez que esteve com José Afonso. Otelo estava preso em Caxias, em 1986, e o cantor, já muito doente, foi “despedir-se” de si, meses antes de morrer. Como o compositor de “Venham Mais Cinco” não podia subir ao parlatório, o diretor da prisão autorizou que fosse o militar a vir, a sentar-se num carro — ele e Zeca nos bancos da frente, as duas companheiras atrás. José Afonso, o cantor, tinha dúvidas se teria valido a pena “a luta” desde os tempos da ditadura, e achava que o seu trabalho musical iria ser esquecido.

“Aí, quase me exaltei. ‘Ó Zeca, pá, nunca digas uma asneira dessas. Tu foste um gajo notável e o que fizeste vai perdurar, pá, até ao fim do mundo'”, recordou. “Tu disseste profundamente às pessoas coisas, aquilo com que elas alimentaram uma esperança grande numa alteração, numa renovação, numa liberdade. Isso é inapagável, é inapagável'”, concluiu Otelo.

daqui:

http://observador.pt/2017/02/21/jose-afonso-foi-otelo-quem-escolheu-o-musico-para-cantar-senha-do-25-de-abril/

foto: Zeca na campanha de Otelo à Presidência em 1976

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulheres de Abril - Maria Vitória Vaz Pato

Eu sou natural do Porto, e aí fiz os meus estudos. A minha mãe, que se licenciara em Farmácia em 1928, era uma católica praticante, sem cultura política e, por isso, naturalmente receptiva à propaganda do regime de Salazar.

Data dessa época (anos 50) o início da minha crítica à Igreja, que culminou nos anos 70 por um processo de abandono da prática religiosa seguido, mais tarde, após madura reflexão, de uma rotura profunda com o conteúdo da fé cristã, seus dogmas, fundamentos, assim como posições político-sociais.

(...)

A minha casa passou a ser o local de compilação e armazenamento do “Direito à Informação” (1)

O trabalho durava até de madrugada, na sala, com as persianas e os cortinados fechados, para não se descobrir luz do exterior, e falávamos com discrição. Geralmente ouvíamos baixinho um disco “revolucionário” de 45 rotações, Zeca Afonso era o mais habitual. Estes discos eram habitualmente apreendidos pela PIDE nas discotecas, mas por “conhecimentos especiais” havia sempre um de nós a conseguir que um editor lhe “vendesse/cedesse um disco”. As editoras discográficas mantinham sempre escondido um stock de uns tantos discos que vendiam depois a pessoas de confiança. Rodávamos o disco até à exaustão e cantarolávamos baixinho: “Os vampiros - eles comem tudo, eles comem tudo...”

(1) - O conteúdo dos DI, (...) tinha como objectivo reunir e difundir informações que não apareciam nos jornais por serem cortadas pela censura, dando–se especial atenção às notícias sobre a luta anticolonial. Saíram 18 números de 1963 a 1968.

daqui:

http://www.esquerda.net/artigo/mulheres-de-abril-testemunho-de-maria-vitoria-vaz-pato/48379